29 08 2016

sê rápida, não penses muito e diz:

desolador. senti-me desolada, com o Vertigo. sinto tanto a perda, todos os dias. tanto medo e sonhos bizarros que vou vertendo aqui.

a inverosimilhança do enredo todo faz-me ver, claramente, a tristeza da encenação.

é uma solidão fininha e assumir que nunca teria coragem para prolongar, assim, uma memória.

 

 

VertigoFlowers





26 08 2016

tanta gente que, incessantemente, te apontava defeitos, enquanto te desviavas deles ali parados, expectantes, num relvado festivo. nem tinhas tempo para sentir pena de ti própria, como o costume.

aguardavam há demasiado tempo, diziam.

não paras de andar, não te recordas sequer de ter planeado aquilo, de lhe conhecer os contornos, mas o certo é que esperam uma grande surpresa vinda das tuas mãos.

tudo a postos, pessoas dispersas debaixo do alpendre ou pelo jardim: o canhão, mais pequeno do que pensavas que fosse, assemelhando-se a um desenho animado, fica numa ponta do jardim.

não tens a certeza se preparaste bem o rastilho, mas entretanto sossegas porque dois rapazes se encarregam do resto.

em vão: uma desilusão tamanha, sem estrondo, nem clarões. Apenas bolas do tamanho de uma bola de bowling, pretas, saem disparadas e a que alcança maior distância, fá-lo para cair desconsoladamente no terreno contíguo, o milheiral.

a vergonha cobre-te. a guerra perdeu-se sem a fazeres.





25 08 2016

Mudara, finalmente, de casa. E, tal como quando sonhara pela primeira vez com um destino Europeu e o concretizou, aquela casa é exactamente aquilo que tantas vezes sonhou. Sonhava de uma forma desesperada porque parecia que sabia, a todo o momento, que não a podia ter e então enraivecia-se.

O apartamento era então, todo em madeira – paredes incluídas, ao longo de um corredor longo. Não se importara antes com algumas portas que fora vendo, mesmo sem saber para onde davam, mas agora estavam entreabertas o que lhe causava arrepios: em vez da curiosidade em sair por elas e descobrir o lado de lá, assume que pode estar alguém do outro lado e entrar sem pedir.

Ficou ainda mais contrariada quando descobriu ainda mais portas que não tinha ideia que existiam, por estarem cobertas com têxteis. Sempre detestou panos, tapeçarias, cobertores: serão sempre empoeirados e estranhos ao toque, para si.

Começa a disposição e o desempacotamento das coisas e nova estranheza lhe assoma ao espírito: parece que a obrigam a ficar com objectos que não são seus e deixaram ali ficar. Decerto foi um abandono puro, mas sente, como sempre, uma imposição.

Abanando a cabeça e tentando sacudir estas contrariedades, percorre o corredor longo (que sempre lhe dá um prazer enorme), para ao fundo virar à esquerda e dirigir-se à cozinha. E, aqui, tremem-lhe as mãos e os joelhos.

Como é possível vê-los, aos dois, numa normalidade de casal de costas voltadas para si? Sente, imediatamente, que interrompeu alguma coisa e observa apenas,através de um vidro. O ar prende-se quando ela, a quem mal lhe conheçe a cara de tanto evitar olhá-la desde que a vira pela primeira vez, se vira de sopetão para trás sentindo a sua presença.

Fala-lhe, dirige-se a ela e abraça-a muito enquanto conversa consigo, qual velha amiga que revê, sem notar a sua perplexidade e confusão. Encosta-se a ela, abraça-a só com um braço, e decide trocar impressões consigo sobre ele despidas de rancor.Ronda-a, como uma abelha, observa-lhe as pernas, toca-lhe as costas, segura-lhe os ombros e entusiasma-se, na voz, perante o amor e a paixão que não quer, sequer, que ela veja que pode existir.

 





19 08 2016

o peso no peito que sinto (mentira, é na base do pescoço e nos maxilares), é directamente proporcional à quantidade de coisas em que penso que existem, recordo, recrio mas a que não tomo o peso, não tomo como minhas, nem ficam inscritas em nenhuma biografia que (não) está a ser escrita sobre mim.

 

por muito intensamente que tenha vivido aqueles silêncios e palavras cansados do sol quente na rua, à espera de um autocarro, com um amigo querido, ou por muito pacífica que me tenha sentido por, digamos, vinte minutos, ao sol entre montanhas, moscardos e água, é como se nada disso tivesse peso ou realidade alguma, neste momento.

sou injusta: quero fazer desses tempos um bálsamo para a minha vontade de não estar aqui ou  de estar noutro lado qualquer, e a actividade regeneradora só depende de mim.

anseio e receio um regresso a algo no fim do dia.

 





14 08 2016

O homem é gorduroso, fala demasiado baixo, usa sapatos pretos pontiagudos com calças de ganga e acompanha-se com uma pequena saca a tiracolo de outro material e de um castanho repugnante.

Pede, de forma imediata, uma sopa. Estão quase quarenta graus. Ele sabe como uma sopa é, deseja-a antes de alguém lho sugerir. Só no caminho para a mesa, ao sentar-se, pede co, toda a normalidade que a sopa venha morna.

Portanto, não só está um calor diabólico e, por isso, qualquer sopa vai estar naturalmente quente, como também é sabido que a sopa é, normalmente, um líquido que se serve quente. Por regra, vá. Claro que lhe sugerem, tão só, a colocação de algumas pedras de gelo, ridículas (apesar de eu desejar, o ano inteiro, meter o prato da sopa no frigorífico após vir para a mesa).

Testa a sopa antes dos cubos serem oferecidos. A empregada hesita muito em ir buscá-los, sugere-lhe provar primeiro, como quem diz: vê quanto te podes sacrificar , isso é-te exigido pela tua falta de normalidade. É quase uma ofensa pedires-me sopa morna. Só artificialmente o conseguirei.

O provar dele consiste em meter um dedo na sopa. A ponta do dedo, e não o nó, como o meu pai fazia antes de me dar a sopa. E, acto contínuo, mete o dedo à boca, fazendo um biquinho indulgente e um som de sucção que preferia não ter ouvido.

Pede as pedras de gelo e, pouco depois, de tanto remexer a sopa, come umas colheres e sai da mesa.





9 08 2016

Demoramos a partir viagem – parece que ainda temos que nos libertar de braços e mãos que tocam. escada acima, escada abaixo, num medo perene que partam sem nós (há sempre alguém que parte sem ti, não há sincronizações apocalípticas).

Parto sem sentir que me liberto, mas logo me deixo levar rua abaixo e, pela primeira vez, sentir prazer porque quero guardar aquela imagem para a colocar noutra parede triste.

É um prédio, um paralelepípedo compacto, azul claro.

Janelas de casas todas apagadas e num silêncio que parece intencional, de espera.

Atrás, um parque de estacionamento aberto, de alcatrão preto a contrastar com as linhas brancas. É o que separa o prédio da fileira de pinheiros. Um único carro ocupa o rectângulo exacto que lhe cabe. O carro é da mesmíssima cor do prédio. Quão provável é que isto aconteça? O prazer daquela ordem que surgiu aparentemente do acaso dá-lhe lágrimas a transbordar dos olhos. Quer guardar, avidamente, aquela imagem e ser a primeira a mostrá-la ao mundo. Uma presunção de descoberta que não é desejo de partilha: ninguém ficará com a água a transbordar da pálpebra inferior pelos mesmos motivos.

Adiante, consola-se com um telhado e fila de janelas do último andar de uma casa. Corta assim as coisas, aos pedaços, e assim parecem-lhe mais bonitas. Mais calmas, sem se atropelar com o mundo todo a aparecer de uma só vez.





2 08 2016

não sei quanto de mim ficou ou assentou neste tempo: conto já um ano disto.

não mudei: passei apenas a cismar e a obcecar com uma ideia. A ideia começa com uma frase, criada por mim. “Eu quero x e x”. Coço o antebraço, coço mais uma vez e não resisto a outra frase, para me explicar bem aquela ideia que será todo o meu projecto de vida (quando nem me lembro de trazer a lancheira do trabalho). “Preciso de ouvir a minha voz”.

Pronto. Isto deve chegar para nortear os meus comportamentos, dia-a-dia, coisas que saem da boca, tempo a queimar, dores no estômago, tudo.

E isto, sem nortear, sem definir, sem desabrochar em resultado nenhum da primeira acção planeada da minha vida, não deixa de me infectar. Não deixa de ser uma voz esquizofrénica, que se ouve – vá, verbaliza até – sistematicamente. Como uma comida que perdeu o prazer na boca porque nos habituámos a deixar de a comer.

Não é que acredites na exactidão e verdade, ou correcção, daqueles dois dogmas que criaste. Não é que saibas o que é viver sob eles – e , que diabo, criaste-os para ti!

Mas são o dedo que ficou torto na mão.








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