9 02 2018

de cada vez que alguém deixa escrito, ou diz, palavra ou palavras que, conjuntamente, queiram dizer amor, prometê-lo, assegurá-lo, torná-lo palpável e imutável, com a certeza da pedra, e essas palavras ficam mas nada disso existe nessa forma (ou sequer existiu), devia a palavra descer do cérebro dessa pessoa, pelo canal nasal e lacrimal, e rebentar-lhe aguçadamente, quiçá um olho, o nariz, o céu da boca. e aí ficar, inamovível.

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7 02 2018

Através da janela grande do café, sem limitações para cima no meu campo de visão, consigo ver a janela mais cimeira do edifício da Beneficência Familiar.

A parte de baixo do edifício parece estar perfeitamente habitada e, à medida que subimos o olhar vamos notando o envelhecimento do prédio, como um filme acelerado de passagem do tempo.

A janela mais à direita, na fila de três, tem o vidro de baixo partido. Uma cortina escura de tecido leve, esquecida, permanece por trás da janela.

Está um vento gélido e revolto e, ainda que me tenha ali refugiado do frio, não adianta porque sinto-o nas costas e nos joelhos só de ver aquela cortina insuflar-se de vento (que entra na sala abandonada), para depois vagarosa e elegantemente se escapar da janela cá para fora, rendida finalmente à massa de ar que quer sair da sala.

Esvoaça, ondula, quase nada e, como que receosa, volta a fugir para dentro da sala com a investida de nova massa de ar, que a cola quase ao que imagino ser o tecto da sala abandonada.

A solidão daquela cortina inútil parece-se, de certa forma, com a solidão que sinto naquele exacto momento. Confundem-se: ou sou eu que faço assim parecer. Aquele vazio que dura uns minutos e que se materializa no tempo a conta gotas. Mais um punhado de minutos em que não estou ali a usufruir de realmente nada, mas antes a rever doentiamente o passado até a história já estar irreal, a projectar catástrofes tristes futuras, diárias e fúteis, que não vão acontecendo.

Aquela cortina ufana, e o tempo que demora aquele ritual, parecem alongar-se dolorosamente, tal e qual como eu sinto o tempo no corpo: sem uma substância qualquer no sangue, a ressacar.

Sinto a desolação daquela sala, que me acolhe até. Mas, simultaneamente, ainda teria medo de estar refugiada num sítio desses, sem que ninguém me visse ou sentisse a falta (faço tantas vezes essa promessa infantil a mim mesma…).

 

 

 





5 02 2018

recordas-te das palavras ditas ou escritas. não todas, claro, mas fragmentos. tens a certeza absoluta que existiram, concretas, materializadas num papel fininho a caneta preta, ou num papel quadriculado.

recordas-te da exacta forma da letra dessas palavras – diferentes.

facilmente te esqueces das tuas e, se tas apresentam volvidos uns anos, ficas estupefacta.

curioso que dês tanto peso às palavras e ao que pretendem deixar inscrito no tempo – neste momento, estás até muito raivosa quanto ao grande vazio de bolha nenhuma que transportaram, a não ser sonhos burlões – e depois não te recordes bem do que escreveste, ou que te pareçam ditas por outra pessoa.

mas isso tem uma explicação simples e clara: é a tua falta de fé em ti, habitual.

 





1 02 2018

ele e ela num sofá cor de alfazema, virado para uma grande janela quadriculada que tem a extensão da parede do café.

um bule de chá a imitar os bules chineses.

estão ambos virados de lado, um para o outro, como se fossem lados de um triângulo, cabeças quase a formar um vértice. um braço dele apoiado sobre as costas do sofá e sustentando a cabeça inclinada. a cara com um sorriso delicodoce, não sei como se consegue ouvir alguém tão bem e tão atentamente se se olha com tanto pormenor para o interlocutor.

ela, bem vestida, feminina, pernas dobradas como se na televisão, uma voz com sotaque fozeiro.

diz que só gosta de filmes com finais felizes. que viu muito o “e tudo o vento levou”, solta uma gargalhada em reacção ao número de vezes de que se lembrou ter visto, mas insiste e sublinha que não gosta de fins tristes.

será um aviso? que pueril, ainda. não pode ser. nunca assistes ao final de nada nos filmes, mesmo naqueles em que a película termina bem. suspendeu-se ali, no tempo, aquela história, sem degradações, vazios, desinteresses, desaparecimentos. é de gelo fino, esse fim.

 





23 01 2018

mais um coração em que morri. descubro que o meu arqui-inimigo é, afinal, a infelicidade trazida pela anunciada morte de outros, abrindo um buraco negro sugador.

 

nem preciso de continuar a ser a minha melhor inimiga, como usual, sabotando talvez as coisas. deve ser uma espécie de mensagem para me convencer, definitivamente, que não sou redentora coisa nenhuma. é preciso arcaboiço, sabes?

 

e não tens.





15 01 2018

a pessoa de há onze anos atrás, perdeu vozes de apoio quando era tão óbvio que bastava ser tratada como alguém que, obviamente, estava a sofrer pelo simples facto de ter que lidar com mais do que uma obrigação ao mesmo tempo.

a obrigação dos exames e de não falhar. a obrigação de se encher de uma espécie de pânico que acreditava que tudo se ia resolver, porque ao menos era uma vida nova, aquela sem o pai em casa.

há onze anos, perderam-se amigos. porque não falava alto de mais, porque não dizia claramente que estava a sofrer de amor. porque, à raiva pelas coisas que não iam mais ser iguais (iam ser, até, bastante diferentes),  não houve paciência dessas pessoas para dizer que, não, também não sabiam onde aquilo ia dar, mas que na convulsão dos dias eu ia continuar a valer alguma coisa.

há onze anos atrás, mantiveram-se amigos até hoje. ou, pelo menos, até onde o limite das forças dos dias nos permitem mantê-los: mas julgo que sim, que aqui estão, em planos, mensagens e um cuidado redobrado no meu aniversário.

tenho sempre a tentação de me lembrar como era há onze anos atrás. demorei tanto tempo a ficar cínica.





2 01 2018

desejo para 2018

que todos sejamos consequentes.