11 12 2017

Para a minha mãe, pelos meus 30 anos.

Mãe,

Queria que não tivesses que trabalhar aos 66 anos. Tento fazer um exercício de memória e arranjar, aqui e ali, coisas e sítios onde não se devia ter gasto dinheiro. Que cobarde completa. A questão está resolvida quando alguém tem que trabalhar a levantar velhos de cem quilos e tem tão pouco mais a perder.

Obviamente que fazes isto para poderes ter ainda mais coisas que me ofertar, com que me surpreender, mais sítios no mundo para ver comigo e só comigo. Porque a honra já sabemos onde a meter, ainda que me enganes e tentes explicar que é mesmo por isso, pela honra de pagar contas.

Pelos meus 30 anos, queria que não tivesses caído ontem na rampa, mais uma vez, e que o joelho não te tivesse traído e inchado tanto. Largar tudo que tenho na mão e ser a estúpida que não te deu o braço, mesmo adivinhando que ias cair, porque andas sempre solta e mais do que podes. Queria não me lembrar que, mesmo quando te dei o braço, não pudeste deixar de cair.

Com 30 anos em cima, queria mesmo ir ao encontro dos patrões que vais tendo e dar-lhes um valente bufardo no focinho. Bater-lhes até me doer a mão, porque não se fazem propostas e enganos como esses à minha mãe. Não se oferecem dois euros à hora à minha mãe com 66 anos, não se falham pagamentos e prometem mundos e fundos e  se continua a respirar e a beber a porca da meia de leite e a pisar as ruas onde também piso e onde pisas também, mãe.

Viver, porque me deste vida, é estar assim no limite: sempre a querer aniquilar algo ou alguém. Como se todas as ofensas, agruras e pessoas asquerosas te estivessem a roubar o ar ou o espaço e eu tenha que os afastar a todos. É doloroso e ainda não vi nada desta vida.

Todos os que me ouvem acham que sou intratável contigo. Nenhum desses está lá para rigorosamente nada, nunca. Mas, em bom rigor, nenhum deles tem alguém absolutamente abnegado como tu. Por isso, devem ter razão.

Deste-me amigos teus, que gostam de mim pelo que sou- prolongamento de ti-, e que orgulho e sorte isso me dá.

Parabéns, mãe, pelos 30 anos, em cima dos 66, em cima dos 45 do teu outro filho. Um corpo que aguenta tanto, um espírito que me leva tudo.

Já não sei escrever, mas sei amar-te desalmadamente.

Beijos da tua filha,

 

 

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27 11 2017

Às 15h00 olhei pela janela: como sempre, vejo pombas. Desta vez, reparo que há uma dentro de um orifício redondo, parecido com uma pequena escotilha de navio em pedra, outra pousada no ferro das cordas da roupa da janela ao lado e uma terceira no  parapeito da janela da sala.

Num segundo, aquela que estava pousada no ferro faz um movimento para tentar partilhar aquele espaço com a outra, que bica no chão do orifício e que, enraivecida, afasta e expulsa a intrusa, não sem deixar de bicar o que lá se encontre mal é bem sucedida.

Nem muito tempo passa e já aquela que estava no parapeito aqui da sala lança-se num voo rápido até lá tentando o mesmo e envolve-se em luta com a resistente, bico com bico, pendurada só por ele, até que desiste e recua até à base.

Segunda investida da outra que se segura no ferro, agora acompanhada pela do parapeito, três obstinadas pombas que, decerto, já nem se lembram porque querem o orifício – sendo que a primeira já deve ter sorvido todas as migalhas existentes.

São 16h18 e olho novamente. Apenas duas pombas sobram e, finalmente, conseguiram arranjar espaço para as duas lá. Uma mais à frente que a outra, é certo, uma com a cabeça de fora, ao frio, e em paz.

Eu sou a terceira pomba, claramente. E detesto pombas.





17 10 2017

Mete uma mão ao bolso do impermeável comprido que ainda cheira a ela e depara-se com um papel. tem sempre uma quantidade inútil de papéis que guarda nos bolsos à espera que apareça um caixote do lixo e depois fica com medo de se separar deles, podem ser precisos para coisa nenhuma.

vê o que é, desdobrando-o. uma lista de supermercado. com a letra desenhada e redonda, imperial, dela. um Leite escrito com um L de livros de contabilidade antigos, um M de manteiga semelhante a uma gravura antiga.

uma elegância restante em sítios de luzes brancas – que odeia, e de que ela gostava tanto – como supermercados desordenados.

uma saudade de todas as coisas mundanas que um dia não viria a ter. aquela lista seria sempre a promessa de a ver mais tarde, seria sempre a memória de mais uma comida reconfortante que dava por garantida.

 





27 09 2017

Sou uma incapaz. Atravesso a avenida cinzenta, de vez em quando, para ir esperar o autocarro (quando não me dão manias de querer quebrar a rotina com um caminho pedonal diferente para casa, que ridícula, que pequenez, que fuga). Na fila, fito dois sem abrigo, andrajosos, com as caras sujas e já de uma certa idade. Não sei se vejo ou se só adivinho falta de dentes, mas uma irritação crescente instala-se em mim por vê-los sentados quase no mesmo banco de ripas de madeira, minúsculo, ridículo, que veio povoar aquela avenida há uns anos. Mas não é só isso: ela empoleira-se nele, abraça-o muito, dá-lhe beijos canibais, há ali uma amálgama e eu só tinha que desviar o olhar, se me irritava, mas deixo aquilo crescer como uma dor de estômago. Deve ser de pensar que eles se acham superiores, de algum modo, por não quererem saber do que os rodeia. Ou por quererem saber tanto, mas não partilhar com ninguém aqueles sucos e texturas e sei lá mais o quê (que diabo, mas quereria eu que eles partilhassem isso comigo?).

 

Continuo incapaz. Vou almoçar ao pequeno café de música agradável com o patrão/empregado surdo, que passa sempre por antipático. Há uns tempos largos que não via aqueles dois, mas encontravam-se tal e qual os havia conhecido há cerca de dois anos. Ela senta-se sempre ao lado dele, virados para a porta. Ela sorri-lhe sempre e gargalha, ele também sorri, ela pendura-se ao pescoço dele, beija-o, mordisca-o, inclinam a cabeça em beijos longos , o almoço todo, a sobremesa, o café. Um ar de devoção que me tira do sério.

Mas, quem me diz que ela não sabe o seu exacto valor? e que pode perfeitamente ofertar-se, nunca se perdendo? Como se tivesse que carregar alguma bandeira minha, pelos meus falhanços. Como se eu, sendo hirta, escondida, envergonhada de demonstrar um único afecto na rua, me desse menos, me perdesse menos, me despedaçasse menos. Obrigo-a a carregar uma verdade qualquer que consiste em afirmar que qualquer gesto daqueles, parecidos com os dos animais, são uma manifestação qualquer de desprendimento de nós e do nosso valor e da nossa identidade ou raio que parta.

Obviamente que digo com toda a segurança que aquilo é um arranjinho. Claro que tudo se confirma só por entrarem num carro, em frente àquele café, na Baixa, para irem para outro lugar, quando aquilo é um café onde iam comer após o trabalho. Ninguém se vai movimentar numa hora de almoço para longe do local de trabalho, só porque sim.

Dois anos e pouco. Tanto mudou comigo, nada mudou com aqueles, essa é que é essa, sua incapaz. A tua descrença nada mudou nem nada manteve.





1 09 2017

Não há encontros, nem encontros de contas, minha crente. Quer dizer, nem chegas a ser crente. Tens sempre o cepticismo pronto a rebentar da boca, expondo muito facilmente a troca de mercado que existe nas relações humanas, e depois és só um cão tolo a correr ladeira abaixo com a língua de fora e as orelhas a abanar.

ninguém vai pagar nada, porque não tens crédito, nem és a dona das infracções de um código qualquer que inventaste sei lá quando e que te invista no poder de cobrares multas e coimas.

é mesmo assim: há a possibilidade de seres absolutamente dispensável, tu, pessoa, real, e  tu, tal como desejada e imaginada por alguém. há alguém que assenta melhor, por conveniência, comodismo, eterno inatingível que tu, com todos os esforços (e que achas , de hoje para amanhã, tanto muitos como poucos), não consegues suprir nem conseguirás.

tudo se passará e constatas que vais acumulando pessoas por quem chorar quando morrerem ou ficarem doentes, mas a quem não vais poder cuidar, que não vão querer que cuides delas, e que ficarão para sempre nos teus soluços.

 

 





9 08 2017

Alguém que se sente sozinho, frio, amorfo e perdido quer agarrar a vida, num outro porto que não o de sua casa.

Encontra-te, de passagem, na vida ou num edifício.

E se forem estes os braços? Há tanto que não tenho um sopro quente de vales ou de terras, bem podes substituí-lo. Vou, até, fazer o meu melhor para te imaginar com as curvas, contra curvas e calor de lá de casa, lá de longe.

Ninguém te propõe que sejas um paliativo: dizem-te que serás sempre mais, serás tu mesma finalmente, com um lugar no mundo e valor próprios. Serás uma nova cidade, até.

Em Roma sê Romano, em amor sê… qualquer coisa, desde que pareças que vais ser adaptável aos costumes de quem te recebe, um pouco fascinado até e muito agradecido.

És, portanto, um vaso que vão tentando construir para uma raiz qualquer que perderam no fim dos tempos. És a cidade onde querem atracar, mas sem quererem construí-la, tão pouco.

 





3 08 2017

Dói-me o maxilar. Deixo-me sempre dormir e esqueço-me da goteira, estava a ir tão bem. Nem para mim sou boa.

Os olhos colam e a luz não me chega a ferir mas não consigo, simplesmente, manter os olhos abertos de forma normal e devo ir a franzir o semblante o caminho todo do percurso do pequeno autocarro.

Descubro que posso encostar a cabeça ao vidro, óptimo, está fresco. Ouço uma música de que fiquei a gostar no dia anterior e, nisto, vejo-o.

Passa a pé na rua. Magro, de mochila moderna, de óculos de sol (mas sei-lhe as feições), ao telemóvel e, já pela segunda vez que o vejo na rua, a sorrir.

Esse mesmo homem escreveu palavras amargas e cantou-as. Palavras que eram, na minha proto adolescência, a mais pura verdade, evidência, triste conclusão sem saída a não ser aturar-mo-nos na porcaria que somos inevitavelmente e para sempre amen.

Como é que não viam isto? Claro que quando se ama é para mostrar. Claro que todos procuramos apenas um pequeno altar para nós e andamos aqui a alimentar conceitos sem ter a consciência, pura e clara, daquilo que, de forma animal , queremos dos outros, em capricho. Ele dizia isso, juro, diz quem ouviu que nos concertos antigos também dizia, e eu, que não devia ser nada daquilo e nem devia ter aquele feitio verdadeiramente falando,  – ainda assim –  aquela verdade que alguém me mostrava em canções fazia-me sentir, de alguma forma, superior.

Eu, esta pateta alegre que só tem consciência às vezes.

E nos concertos que pude milagrosamente ver dele num regresso emotivo, estava um doce.

Já o vi subir a rua Sá da Bandeira de sorriso doce e braço por cima do ombro da mulher.

Vejo-o agora a sorrir beatificamente. Agora, que estou uma cínica mal composta (deve ter sido só à força de repetir os mantras e de colar com saliva as notas para me lembrar de ser amarga às vezes).

Mas gostei tanto que aquela figura esguia me lembrasse dos inúmeros filmes construídos que eu fazia para uma vida em consciência – e de tantas oportunidades que perco para, na minha vida (não na dos outros), pensar de uma vez por todas em quem sou eu e onde estou nos meus gestos.