9 08 2017

Alguém que se sente sozinho, frio, amorfo e perdido quer agarrar a vida, num outro porto que não o de sua casa.

Encontra-te, de passagem, na vida ou num edifício.

E se forem estes os braços? Há tanto que não tenho um sopro quente de vales ou de terras, bem podes substituí-lo. Vou, até, fazer o meu melhor para te imaginar com as curvas, contra curvas e calor de lá de casa, lá de longe.

Ninguém te propõe que sejas um paliativo: dizem-te que serás sempre mais, serás tu mesma finalmente, com um lugar no mundo e valor próprios. Serás uma nova cidade, até.

Em Roma sê Romano, em amor sê… qualquer coisa, desde que pareças que vais ser adaptável aos costumes de quem te recebe, um pouco fascinado até e muito agradecido.

És, portanto, um vaso que vão tentando construir para uma raiz qualquer que perderam no fim dos tempos. És a cidade onde querem atracar, mas sem quererem construí-la, tão pouco.

 





3 08 2017

Dói-me o maxilar. Deixo-me sempre dormir e esqueço-me da goteira, estava a ir tão bem. Nem para mim sou boa.

Os olhos colam e a luz não me chega a ferir mas não consigo, simplesmente, manter os olhos abertos de forma normal e devo ir a franzir o semblante o caminho todo do percurso do pequeno autocarro.

Descubro que posso encostar a cabeça ao vidro, óptimo, está fresco. Ouço uma música de que fiquei a gostar no dia anterior e, nisto, vejo-o.

Passa a pé na rua. Magro, de mochila moderna, de óculos de sol (mas sei-lhe as feições), ao telemóvel e, já pela segunda vez que o vejo na rua, a sorrir.

Esse mesmo homem escreveu palavras amargas e cantou-as. Palavras que eram, na minha proto adolescência, a mais pura verdade, evidência, triste conclusão sem saída a não ser aturar-mo-nos na porcaria que somos inevitavelmente e para sempre amen.

Como é que não viam isto? Claro que quando se ama é para mostrar. Claro que todos procuramos apenas um pequeno altar para nós e andamos aqui a alimentar conceitos sem ter a consciência, pura e clara, daquilo que, de forma animal , queremos dos outros, em capricho. Ele dizia isso, juro, diz quem ouviu que nos concertos antigos também dizia, e eu, que não devia ser nada daquilo e nem devia ter aquele feitio verdadeiramente falando,  – ainda assim –  aquela verdade que alguém me mostrava em canções fazia-me sentir, de alguma forma, superior.

Eu, esta pateta alegre que só tem consciência às vezes.

E nos concertos que pude milagrosamente ver dele num regresso emotivo, estava um doce.

Já o vi subir a rua Sá da Bandeira de sorriso doce e braço por cima do ombro da mulher.

Vejo-o agora a sorrir beatificamente. Agora, que estou uma cínica mal composta (deve ter sido só à força de repetir os mantras e de colar com saliva as notas para me lembrar de ser amarga às vezes).

Mas gostei tanto que aquela figura esguia me lembrasse dos inúmeros filmes construídos que eu fazia para uma vida em consciência – e de tantas oportunidades que perco para, na minha vida (não na dos outros), pensar de uma vez por todas em quem sou eu e onde estou nos meus gestos.

 





27 07 2017

Faltam-lhe os dentes. É curioso como fixei tanto o tom de voz dele e como, tão inconscientemente, lhe tinha a dicção também fixada. Que agora já não existe.

E a dicção mudou e o tremor de voz é diferente. Não existia antes, vou dizer que é da emoção porque o conheço quando vem de dentro de mim.

E recordo-me como brincava tanto com a sua pequena prótese de dois dentes pequenitos frontais – que eu jurava serem iguais aos meus, trocando as voltas à cronologia da genética. Deixava-me pegar na prótese e não me fazia impressão, como a da minha mãe. Achava piada porque parecia ter espinhos , era recortada de forma estranha e não conseguia compreender que era meramente utilitário.

 

Era uma pequena coroa. Era.





28 06 2017

-Gostas da casa?

Gostava, sim. Era curioso como tanto gostava de casas antigas recuperadas, e que achava mais diferenciáveis umas das outras – o que lhe agradava – como também de casas assim modernas, brancas, sem protuberâncias de armários nas paredes. Os corredores eram longos, havia luz que não feria. Quase não podia acreditar que ia morar ali.

-Gosto muito – balbuciou quase inaudivelmente.

Não conseguia libertar voz porque se sentia, ainda, perplexa e desconfiada. Ao que lhe parecia, até ao dia anterior, tinha vivido sempre com algum aperto, tudo bastante controlado no descontrolo, tudo muito previsível num futuro próximo quanto a possibilidades, novos voos, novos sítios. Até porque era um ponto de honra manter a casa anterior, a de sempre, a que não era delas mas que tinha a vida delas toda lá dentro. Como raio é que tinha ido arrendar aquela casa?

-Mas e a outra casa?

Tanto queria voar, mas tinha muito medo de ter que se despedir da casa. Tinha-se realmente moldado às suas recordações. Não é que, quando se sentava no sofá, se lembrasse todos os dias da infância feliz e a visse ali. Mas ela estava ali, impregnava-se nela sem que a precisasse de evocar. Em tempos sentira a casa hostil e tinha detestado. Agora, não ansiando propriamente regressar a ela ao fim do dia , sentia que a acolhia sem perguntas. Não a queria deixar.

  • Ficamos na mesma com ela, esta é provisória e podes vir vindo para aqui.

Isto soltou os alertas todos. Duas casas, duas rendas? Impossível, recusava sequer a aceitar esta facilidade súbita como real ou sustentável. E se havia coisa que lhe punha o sangue a fervilhar, eram estes rasgos à grande Gatsby.

  • Mas como é que é possível? Onde arranjaste o dinheiro? A sério, quem está a pagar isto?

Pela primeira vez hesitou na resposta, desviou-se e traiu-se absolutamente num motivo velado por trás daquilo.

Mais tarde tudo se tinha deslindado: tentações e facilidades oferecidas por governos obscuros que sempre tinha criticado e ela era apenas uma ponte no meio de intrigas palacianas. Uma mulher que tinha sido sempre íntegra, afastada do poder, deixara-se levar por aquilo: talvez pelo medo, que sempre lhe tinha mordido os calcanhares, de ficar sem nada.

As intrigas descobrem-se, anuncia-se um julgamento.

Ficara revoltada com o desmoronar da heroína aos seus olhos. Não estava desiludida, nem vazia, como um pedaço de cortiça seco, mas antes revoltada, cega, sem ar. Queria estar ali no momento em que seguissem para o julgamento e assim foi.

Vê os condenados passar pelo corredor , entre eles a mãe, e grita-lhe muito apontando-lhe o dedo, em riste, até se conseguir aproximar dela. Sente a garganta prender-se, julga-a, faz recair a culpa de tudo o que vai acontecer daí para a frente sobre ela, sobre o seu discernimento, decisões tão petulantes e inflexíveis que agora era evidente que, finalmente, a haviam tramado.

Queria apenas reforçar-lhe, até ela admitir qualquer coisa, que mais valia ter torcido, que mais valia não achar que tinha sempre certezas, que tinha de uma vez por todas decidir se tinha princípios ou se não os tinha. E gritava-lhe isto muito perto.

Num segundo, ajeita-lhe o colarinho da túnica de cor branco sujo, de linho, que  envergava. Porque percebe num segundo que aquela roupa e o cabelo cortado curto e desalinhado significavam que caminhava para o cadafalso. E então chora, chora desalmadamente agarrada àquele colarinho, com os músculos da cara e do pescoço a contorcerem-se, nunca tão facilmente quis largar o que dissera antes, deixar de acreditar em cada palavra, que se lixe a tua coerência ou  a tua faltade flexibilidade ou o teu sempiterno tenho razão. Tão facilmente se vergaria de novo, deixaria de querer lutar pelo ponto de vista, abdicaria de deixar inscritas aquelas palavras tão vãs de acção quanto dolorosas e com efeitos nefastos.

Só para que ela não caminhasse para o cadafalso.





19 06 2017

O pai dele morrera. Era esquisita a distância que, agora, a morte apressadamente obrigava a encurtar. Lutava-se contra o tempo, encaixando tudo o que não se dissera e o que nunca haveria de recuperar naquela burocracia de tarefas que não fazem parte do dia a dia de ninguém: escolher caixões, flores, sítios, cartões de anúncio de falecimento.

Parecia-lhe vê-lo a andar em círculos, mas com aparente normalidade e sentia uma urgência de fechar o chão sobre aquela pessoa falecida, a ver se se conseguia dar algum passo assim.

O que mais a afligia, quase em pânico, era que não parecia haver dinheiro para fechar aquele capítulo. nem conseguia imaginar o que aconteceria se, logo no dia a seguir (tão pouco tempo para uma pessoa se aperceber do que aconteceu!), não fosse possível juntar o dinheiro e pagar para o enterrar.

Assim, enquanto ele andava aparentemente a continuar a cuidar de trabalho, porque assim tinha que ser, olhava-o e cada vez mais lhe parecia o pai acabado de morrer. Se onde surgira aquele bigode? Tudo o resto, a compleição física mais emagrecida e a forma de colocar a t shirt nas calças, já se vinha assemelhando há uns tempos. Só a altura denunciava que era o filho vivo.

O desespero que a levava a pedir aos amigos, como quem vende rifas, ajuda para o funeral não se coadunava com o semblante de recolhimento ou o ritmo lento e magoado que impera nestes momentos.

Ele lá continuava a falar com quem trabalhava com ele, em sua volta, como numa reunião habitual.





16 06 2017

não julgues que sou sensível: é uma coisa delicodoce, de vez em quando, lembrar-me que deixei de ver o rapaz com cabelo encaracolado emaranhado e semblante muito calmo e absorto, nas redondezas da minha casa,e  sentir um vazio na garganta.

esse rapaz agasalhava-se sempre de mais para o calor que fazia, talvez porque fosse mais fácil trazer a roupa assim.

tinha uma mochila puída, movia-se lentamente, sentava-se nos degraus do multibanco de cotovelos nos joelhos a pensar na vida.

fazia horas para o coração da cidade. por vezes, eu achava que podia estar bêbado, mas não. ainda dormiu umas vezes por ali, mas fundamentalmente esperava nos degraus das casas. eu inventava-lhe fugas da família, desejos de solidão, vozes na cabeça. mas nunca pediu dinheiro, nunca lhe falei. havia ali uma autosuficiência (bastava-se sem contacto), mas uma tristeza dentro de um vidro, que nunca poderíamos alcançar, muito menos eu que tenho tudo (até uma cartilha para viver a que não dou uso, que ridículo).





9 06 2017

As minhas pálpebras dançam. Ora se debruçam sobre si próprias, como eu quando me enrolo sobre mim, de pé, e deixo cair os braços pesada e livremente, ora se arregalam e arrepanham, a acompanhar uma excitação e energia que, na realidade, não me habita. É quase um carro a rolar pela ribanceira, quando me sinto assim enérgica de exausta.

E este cansaço traz-me duas coisas: indignação em muitos momentos do dia, face às mais variadas frases, perspectivas, posturas, e uma emoção tremida e fácil, uma compaixão delicodoce estúpida, uma constatação meio chocada da desgraceira dos outros quando, às tantas, nem eles a mencionaram.