20 02 2017

o meu avô paterno tinha uma escrivaninha, organizada, própria de comercial grossista. tinha blocos de notas aos quadrados, com caravelas na capa, que eu rabiscava sem noção.

também tinha um móvel na sala, da televisão, e com uma porta que se abria e de onde saía a aguardente. o cheiro da madeira do móvel era maravilhoso: odeio aguardente, mas cheira sempre àquela madeira. dizem-me que cheira sempre, mas eu ainda acho que é da madeira do móvel.

ele, além de beber o vinho da garrafa verde escura com aquelas tampas que têm uma mola de metal, bebia daquela aguardente amiúde. ao que sei, apesar de ele até ser simpático comigo e gostar de conversar comigo, era inteligente, acutilante, mau, bêbado e atrevido.

pelos vistos, era mesmo de andar por fora, de se atirar às mulheres todas, de não amar os filhos. mas nunca vi: só me mostrava os coelhos e as galinhas, lá fora, mas sei perfeitamente que não tinha grande carinho por mim.

era assim cheio de vícios, mas uma vez disse-me: vou ensinar -te a comer uma banana com classe. e mostrou -me como se descascava, colocava num prato, se cortava ao meio com faca e garfo, e fatiava, minuciosamente, a banana.

cheio de volúpias, maldades e manias, mas a banana comia-se de faca e garfo.





2 02 2017

é curioso como o andar daqueles que achamos estarem dementes ou alienados é hesitante, titubeante- não necessariamente errático. vão ali pé ante pé, têm movimentos mais lentos, mesmo com os braços e associo isso sempre a uma invectiva inesperada qualquer. aquele momento de espera entre eu passar ao lado deles e aquele em que ele ou ela se mexem finalmente, é quase torturante.

de repente viram-se, apontam o dedo, vêm como que perguntar as horas ou assim e nós despachamos logo.

até há pouco tempo não despachava. não conseguia: egoisticamente pensava que um dia podia ser a mim que me faltava um euro para o comboio.

passei a acelerar o passo, como fiz ontem rua sá da bandeira acima. lá ia um negro alto, vestido com meio fato meio outras peças. apontava, dava urros de vez em quando, interpelava as pessoas. só pedia “por favor não te atires para o meu caminho”, finta e segue.

não sei por que artes mas surgiu logo após no minipreço como se ainda agora tivesse estado lá. finta de novo dribla, corre, não importa: conseguiu mesmo interpelar-me.

enquanto fala para outra senhora pequena, de socas , meias de lã, avental, despachada lendo revistas e que só ouço a responder

oh escusas de me dizer o que estás a dizer já sei tudo sobre isso, muito obrigada, falo muitas línguas

percebo que ele lhe pergunta se sabe falar francês, como é que é possível ela não saber, depois de terem estado em África tanto tempo . Vangloria-se daquela constatação de selvajaria da nossa parte.

Mas pergunta-me, ainda neste seu pedestal:

Diz-me como sei falar francês!

E então pareceu que desde sempre tinha tido uma resposta para ele, desde lá de baixo, de perto da praça D João I onde o evitara

-Porque aprendeste.

Arregala os olhos azuis, a única vez que os consegui olhar directamente.

Boa resposta! Muito boa resposta é isso mesmo. E como é que em África, no Congo, falam francês?

Já avermelhada, como sempre,

Porque os colonizadores Franceses lá estiveram

De novo espanta-se, hesita-se, hesita naqueles tais movimentos mas que, agora, indiciam alguma alegria, algum orgulho.

Avança na sua fila e eu na minha, pede para se pagar aquela cerveja, lança um cheiro pestilento que provoca revirares de olhos e de costas nas meninas das caixas, que espoletam um

Jesus senhor

da senhora que está atrás de mim. Vou percebendo o que está a acontecer e parece-me ouvi-lo dizer algo que indicia que admite também o que acabara de acontecer.

De repento ganho vergonha de novo, vou-me afastando enquanto ele se aproxima de novo, tento parecer normal a ensacar as compras.

De onde és? pergunta-me

Irresistivelmente, respondo-lhe que sou do Porto. Enumera-me freguesias de Gaia, dizendo que é de Avintes, e que o Porto é grande e as engloba, apontando-me assim a minha falta de rigor e preciosismo.

Respondo-lhe distinguindo bem as freguesias de Gaia das do Porto, calma lá que eu sou mesmo desta cidade, esta cidade é minha a bem dizer, eu cá nasci e andei e aprendi a andar numas ruas acima daqui.

Gostei de falar contigo, une bonne Mercredi petite fille, diz -me ele.

Rio-me sem nunca o olhar de novo a dizer olha Merci que é o que sei dizer.

 

 

 





24 01 2017

Quiseste mostrar-me o hospital/orfanato improvisado, depois de te ter deixado chorar no meu ombro a perda de um paciente e algumas agitações com familiares.

Estava, como não podia deixar de ser, húmido e abafado. As estruturas em madeira periclitante, os beliches e camas todas perto uma das outras, as mantas amarrotadas de várias cores.

E crianças, famílias inteiras que, apesar de estarem num hospital, sorriem e estão felizes e animadas por te ver.

De repente tudo treme mais, não se percebe o que aí vem, torna-se ensurdecedor na fuga desesperada de todos nós pelas tábuas de madeira prestes a colapsar. Mandas-me para a frente e sei que te perdi, mas nem quero acreditar.





11 01 2017

reunimo-nos para um café num sítio aconchegante, de luzes amareladas como gosto. mas a porta, atrás da tua cadeira, teimava em abrir estrondosamente com o vento que se fazia sentir. era quase violento, o arrepio de frio que me acometia, e só havia urgência no meu olhar, para que a fosses fechar de cada vez que abria, assim não conseguindo conversar mais do que dois segundos seguidos contigo.





5 01 2017

em dez anos, saiu de casa. durante dez anos: foi saindo. quase como se aquele dia se repetisse maquinalmente e atrás de um pano.

tenho uma t-shirt folgazona, ainda, desde esse dia. chegara-me pelo correio, numa embalagem pequena. talvez a primeira coisa que pedira pela internet vinda além mar.

um evento quotidiano, que agora se vai repetindo e que logo dividiu atenções com decisões fatais. lembro-me perfeitamente da felicidade daquela compra mínima e estúpida de um objecto que eu achava que mais ninguém no grupo teria, e de ter sorrido com o estômago apertado para logo de seguida me obrigarem a saber, muito rapidamente (em quinze minutos, não mais), que a vida ia mudar.

mentira: eu não percebi, logo ali, que a vida ia mudar ou como é que ia mudar. ninguém adivinha as noites, os choros abafados, os gritos enraivecidos, os olhos tresloucados ou, ainda, as palavras mais absurdas ou historietas mais expostas e vulgares que alguém consegue contar pela vizinhança fora quando está encharcado em dor.

tudo isso leva dez anos dentro repetidos pelo tempo fora. como penas de prisão acumuladas nos Estados Unidos.

sabe-se que está sol, que se esteve sentado a umas mesas a divulgar a Faculdade que se frequentava na altura, que se faz o caminho para casa ainda aflita com o tempo necessário para estudar para o exame de três dias depois e sabe-se, muito depois, como é sentir algodão nos olhos e nos ouvidos enquanto se cumprem as tarefas sem ter muita atenção às consequências, ao sucesso ou insucesso do evento.

as palavras mais vulgares e mais certeiras saíram-me da boca nesse dia e disse-as com uma quase euforia da aventura desgraçada: “eu estou aqui, sempre, contigo”.

mas são dez anos de um palimpsesto e de desconhecidos. é inevitável, é irremediável e é o tal paraíso perdido, aqui ao lado.

 

 





29 12 2016

nem acredito, estava enganada. ia jurar que tinha dito, há pouco tempo, que ela morrera, mas afinal deve ter sido um mau sonho. tenho a minha Peggy viva, quente e gorda, um cheiro de pêlo camisola e não de bicho. consegui, está comigo, que alívio.

nem durou um minuto, parece: estou com ela de novo nos braços, dizem-me que está assim estranha porque tem um derrame cerebral. nem outro momento e, como outrora, deixo-a lá a dar beijo na testa a saber que não a vou ver mais, mas ainda assim a virar costas.

não me perdoei de novo. avisam-me por telemóvel, de novo. não sei o que faria com o último respirar exacto, mas fui sempre menos do que foste para mim, Peggy.

 





20 12 2016

tenho, finalmente, saudades de quando eras pequeno e cambaleante e te sentava na minha cama a ouvir Chopin. E gostavas.