12 10 2018

uma tosse abafada, ao longe, debaixo do chão (que ironia) e que deixa de se ouvir. já era mais do que ouvia do meu pai, no correr dos dias. era de outro corpo e vida, dos quais se soltava aquela tosse, mas que também fez parte carinhosa da minha infância.

dos quais se soltou aquela vida. um sopro, só. foi, literalmente, isso. sem ninguém de mão dada. e só agora, bruta, percebo a desolação disto (percebo no sentido de sentir de raspão, não de compreender com inteligência: não a tenho para isto, está visto).

tiram um corpo que ontem era vivo, imagino que pelo corredor fora, pela porta, pelas escadas onde hoje passei de manhã.

lá vai ele, sem mais nada cá, até o arrumarem debaixo de terra.

quarto, corredor, porta, capela, terra. como poderemos nós imaginar este caminho, quando o fazemos em duas pernas, até à capela apenas (por enquanto…) e sem saber quando o coração vai parar? sem saber o exacto momento em que parou de bater e não se lhe segue outra batida? esse milésimo de segundo, que nos apaga.

resta pensar que nada sabemos do nosso nascimento a não ser o que nos contam e que, com a morte, passar-se-á o mesmo, mas sem mais intrujice e narrativas que nos conduzam para aqui ou para ali.

acabou assim a luta de fazermos a nossa história connosco bem presentes e lúcidos, sem que ninguém nos refaça mais os movimentos de bebé, as rugas, os traços já tão parecidos com aquele e aqueloutro, aquele primeiro passo ou palavra, sobre os quais a doutrina diverge.

descansarei também, um dia, de fazer narrativas e conjecturas sobre os outros enredados na minha vida, como se fossem fios de auscultadores que se transformam, quase miraculosamente, em vários complicados dentro do bolso sem intervenção minha. deixarei de lhes determinar os passos, cravando-lhes qualidades e defeitos que sempre servem para compor uma imagem, ou memória, vá lá.

 

 

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9 10 2018

Nem eu sei  o que é viverem-me fora do corpo. Ter um coração, meu, fora do corpo.

Mas parece-me que sou o de alguém. E, simultaneamente que não sou o de outro alguém.

Acaba tudo no corpo: um dos corpos, tão diferente e que te substitui agora (em bom rigor, desde então). Chegam-te ecos dos adornos tão díspares dos teus, das formas tão diametralmente opostas que parecem ser do outro lado do oceano (e não é que são, literalmente, assim?). Corpo esse que, respeitando as leis da física, ocupou o teu lugar vago, rapidamente, e que parece ter estado sempre lá, em sonhos.

O outro corpo é o teu: mas já um bocado arrancado ao que és, à tua voz. Um corpo feito de flancos oferecidos, com vários golpes de rins e que na noite seguinte te faz questionar, mesmo em voz alta no escuro do quarto: a palavra cobardia tem algumas pontas afiadas (ali o b e o d, agudos, e mesmo o ponto do i), mas não sabias que eram gumes de golpes de faca.

Há cobardias feitas de acção (e isto parece-me uma conclusão estranha porque associo logo cobardia a inacção e imobilidade). Cobardias feitas de palavras soltas, tempos a tempos, que não são caladas quando quem as profere não tem rigorosamente nada para dar ou contemplar, ver, sequer, na outra pessoa. Já nem olham, nem um único olhar cruzado.

O corpo que te há-de levar e esconder e que nem alma, sopro de ideia, bafo, o é, nas suas cabeças e corações.

 





4 10 2018

numa mesa de madeira, sentada a um banco sem costas, a massacrar só um pouco mais a coluna (e, curiosamente, irá aniquilar qualquer coluna vertebral, no sentido literal e figurado, até ao fim da noite).

uma pessoa em frente a si, interpelando-a de forma calma e interessada e que faz parte de um segmento da sua vida, profissional, de que ele mal sabe ou quer saber, a não ser por uma ou outra pergunta introdutória de conversa que atira de quando em quando, sem realmente ouvir a resposta.

há um ecrã, seu, que de tempos a tempos pisca. não houve nada escrito, para si, para dentro do seu coração esponjoso (e que esponja, que mata borrão que aquilo é….) que a valorizasse de forma especial, que lhe afagasse o ego, que a fizesse sentir especial e amada mesmo numa distância de ruas e vidas.

mas qualquer coisa numa frase simples, semelhante a “desculpa o incómodo”, associada ao cenário que reconstruiu ao longo da noite na sua cabeça com a ajuda das descrições que ele lhe foi dando (o copo de vinho, o degrau solitário, o silêncio só cortado pela procura dela), resultou numa decisão impulsiva: um grande gesto à filme/ série delicodoce romântica, pois seja.

o impulso, apesar de rápido – raio ou véu que lhe passou pelos olhos-, assemelhou-se mais a uma morte lenta. melhor: a um assassinato lento. uma cena que, vista de fora, foi uma sequência irresistível de fatalidades com tudo para correr mal, resultado final a que a protagonista era alheia, como quase sempre nos filmes e séries.

a partir do momento em que essa ideia se lhe alojou nas têmporas, a perna direita abanou à velocidade e constância de asas de colibri. se houvesse uma máquina de costura em frente a si (que nem sabe costurar), e um pedal debaixo do pé direito, teríamos vestido pomposo em menos de uma hora.

as escadas e ruas desapareciam à sua frente, mal lhes tocava com os pés acelerados ao encontro da porta de casa, já fugia em tapete rolante.

um só toque de campainha e a espera melodramática desses produtos de ecrã, com os movimentos muito lentos do outro lado da porta. o plano de tragédia cada vez mais perto de um fim pastoso, como se o celulóide se queimasse a uma velocidade vertiginosa, mas só conseguíssemos ver em câmara lenta, em total desfasamento de velocidades.

seguiu-se o tempo, rápido, com a calma a instalar-se, uma voz interior que dizia: afinal, foi bom, cara a cara, a vida real, afinal há calma, controlo, normalidade, ganhaste um espaço teu, finalmente dentro de ti e não fora.

no lance final, como um elástico que foi esticando até ao limite sem se dar conta, perdeu o espaço.

mas, como em qualquer história triste, não foi ali ou no fim daquele tempo que percebeu, dolorosamente, quão pouco pode significar para alguém e, simultaneamente, estar a presença desse mesmo alguém. foi no silêncio seguinte, na fuga dele e agora pensa, agarrada a tapar a cara apesar de ninguém se dependurar no tecto do quarto a espreitá-la, que nunca viu tantas fugas de uma só pessoa com tão pouco tempo a mediar entre elas.

pensa, ainda e em apoteose, com a cara arrepanhada a abafar o som ridículo dos soluços, que o tempo de vida esvai-se e somam-se as perdas: das pessoas, mas sobretudo do tempo. há-de morrer com duas mãos cheias de perdas, povoadas de pessoas que não estão ali nem aqui, e que nem preenchem as horas que passam, nem lhas dão.

 

 

 





30 09 2018

Em diferido, uma cena de um filme francês a preto e Branco que não vejo contigo (penso que nunca vimos um filme até ao fim, por queimarmos a nossa película ao vivo),  traz me uma frase: “acreditei em Deus, Jeanne. Por três minutos”. Algo assim.

Em diferido , dizia eu, alguém me mostra palavras que não me dás. Dizes, ao mundo, que acreditaste em deus por uns minutos ou um bocado, algo também assim.

Palavras que te trazem, em cortes.

 





13 09 2018

Num filme visto ontem, em luta contra os bocejos constantes do cansaço estúpido que deixo que me acometa, a cena final depois de tantos diálogos e nuances tão significativos: o padeiro, de uma compreensão e doçura quase néscia ao longo de toda a narrativa, diz tudo o que parece não ter podido dizer antes à sua amada, mas dirigindo-se à sua gata vadia, em jeito de indirectas mas de 1938

(mas como é que ele tinha aquilo para dizer? naquele ponto da trama, já eu estava convencida que nenhuma crítica ou desprezo lhe nasceria no peito por pura impossibilidade, o que serviria bem para redimir a espécie humana aos meus olhos por estes dias)

Numa espécie de sermão, diz à sua regressada, assim em linhas toscas, que as aventuras e belezas do outro são todas muito bonitas, mas o que fazer da ternura? Será que o outro calmeirão se levantaria de noite só para a ver dormir?

E avulta ali algo que não consegui ainda definir: uma superioridade moral, por tudo ter acabado da forma desejada? Motivada, talvez, por um misto de alívio e sensação de vitória que lhe havia de pulular pelo coração naquela altura. Ou apenas aquela cegueira costumeira ditada pelo medo, que geralmente conduz um dos elementos a lançar uns “atrás de mim virá, quem bom de mim fará” ou semelhantes, na senda de demonstrar que é melhor valorizar os sentimentos – alegadamente – perenes, estáveis e com mais substância (o que quer que isso seja)?

Assemelha-se sempre a uma promessa, esta exaltação de virtudes comparativas que sempre abundam também na nossa vida fora da película. E fico sempre incrédula que se consiga exaltar uma virtude que não foi, nem é, nem será – com toda a probabilidade – constantemente (ou frequentemente, sequer) exercida ou demonstrada. Ternuras, substâncias, admirações. Ainda que o fosse, como não pensar que esse acordar durante a noite, tão aparentemente pueril, delicado e sensível, não é dar nada, mas sim um puro receber? O receber de uma casa, de orgulho (egoísta, sempre) de ter alguém com aquelas características ao seu lado, de ter um rumo nesta vida?

Dizia Amable a certa altura que a casa lhe caiu em cima da cabeça, num lampejo em que realiza que a sua mulher fugiu. Mas se tivesse realmente caído, gostava de saber se dormiria ao relento com ela só pelo que ela é. Sem mais.

 

 





4 09 2018

violentada à distância: eu. sem toque, sem resfolegares, sem palavras em discurso directo, sequer, nem um cheiro, por mínimo que seja, a suor (não me lembro de nenhum cheiro teu, agora que penso).

violentada em palavras para outra pessoa num blogue perdido neste buraco branco da internet. como dar com uma gaveta meia esconça e ir lá vasculhar, sentir no estômago – não deves – mas avançar inexoravelmente. vês um poema e texto de amor.

De 2008 ou 2009, andavas tu na faculdade, ou a sair dela, meia descabelada, sem história.

Violentada hoje porque as mesmíssimas palavras de um 2017 e 2016, tantas vezes ditas a ti, ou gritadas, ou molhadas, já ali estavam, iguais: os mesmos termos, a mesma voz rouca decerto  – dirigidas a alguém que lhe desapareceu da vida, dizia ele.

ainda deixas cair o maxilar inferior, e pestanejas muito, já sabias que ali estava que raio de espanto ou de indignação é essa? não sabias mudar de passeio?

só tinhas que ter mudado de passeio.

 

 





16 08 2018

uma vez ferveste do pescoço aos olhos, porque a um argumento teu, apelidou-o de “direita demagógica” e mais uns quantos espasmos. Estava incrédulo, como quem diz, estava quase enojado, mas nota que não te denominou de nada, tu é que tremeste perante rótulos que pareces ainda precisar. Sentiste-te impotente porque achaste, nitidamente, que não tinha percebido nada do que querias dizer, que tinha que perceber que não era nada daquilo, mas o que é isto, como é que é possível. A esta altura do campeonato, tu é que não percebeste o que tinhas que defender (ou não defender).

agora, um mundo digital que te mostra o seu nome, devidamente agrupado no rebanho dos que dão corações, numa foto banal, de perfil, de uma tipa da direita liberal que vai fundar novo partido e tudo. salpica outra vez o seu nome, noutra foto vaidosona e, pasme-se, a adulta empoderada até está no festival que lhe provoca, a ele, rebolares de olhos ao descer as escadas do respeitinho por ti mais um bocado.

para te recordares do que são os teus traços no mundo e principalmente, de quando não estás do lado esquerdo do peito de alguém (finalmente, o certo apenas por ser original).