22 09 2016

Já vejo o autocarro a chegar e passa por mim a mulher do senhor do café, que todos os dias àquela hora leva a filha e o filho ao colégio onde andei (sei-o pelas batas, que me cheiravam sempre a leite com chocolate, enjoativamente).

A menina vai a pé, de mochila com rodinhas (tive uma, na famigerada Irene Lisboa, piores anos escolares de que me lembro: obviamente, entre outras agruras, estragaram-me a mala, rebentando com as rodas).

O menino, loirinho, vai ao colo da mãe, de cabeça encaixada no ombro e no pescoço dela, docemente embalado.

Ouço uma voz atrás de mim meio rouca, de homem velhote a dizer em tom de brincadeira:

 

-Que vergonha, um homem tão crescido  a ir assim ao colo da mãe!

Mal começara eu  a resmungar interiormente com este mecanismo de negar o colo a homens e a crescidos, quando a irmã disse numa voz aguda mas determinada:

-Os amigos dele também vão todos assim!

Aquela defesa acirrada enterneceu-me, mas fez-me pensar que há sempre o raio dos pares a toldar-nos a visão. E nunca me esqueço da frase ríspida que ouvia se tirava uma nota menos boa e, assim, pelas razões erradas:

-“os outros não me interessam. Não interessam para a tua nota.”

O número conforta-nos. O número de pessoas a quem perguntamos se aquela resposta está correcta, conforta-nos. Mas ,quando queremos a  glória para sermos os únicos numa vitória estúpida qualquer, já só nos conforta se conseguirmos pisar esse número todo.

Todavia, confortou-me mais aquela defesa pronta, seja por que argumento for.

 

 





19 09 2016

As janelas daquela casa permanecem fechadas há um bom par de anos. Amareladas, as portadas. A fachada ainda não ruiu, nem nada que se pareça, mas eu e tu sabemos que há uns tectos de uns quartos que já caíram com a chuva. Também sabemos que a água da piscina, de vez em quando, batia à porta. Que agitação, que frenesim, entre todos.

Aquele lugar sem ninguém, sempre com um silêncio físico (as coisas lá devem continuar, aqueles bibelots que a Dona Madalena devia enfiar para lá à socapa), fechou-se.

Não podes ir lá pedir desculpa, não. Não podes ir lá ser alguém melhor: deixaste sempre uma mera sombra e ainda te espantaste com uma porta que levaste na cara.

Mesmo quando tinhas a porta aberta, as portadas semi abertas, o coração escancarado, não podias ir lá choramingar pela vulgaridade a que te deixaste votar.

O sítio não te estragou nem redimiu. As coisas têm um momento próprio e tu quiseste estragar um fogo de artifício numa ocasião festiva qualquer que lá ficou.

No entanto, queimou-te.

 

 





cartas

14 09 2016

Já não estava tão mirrada como outrora. Mas lembrava-se, todos os dias, da cara encovada e dos olhos baços que a acompanhavam sempre. “Estás mais magra”, diziam-lhe amiúde. As calças sobravam atrás, o estômago colava-se às costas. Tinha momentos muito concentrados no tempo em que disparava várias piadas de auto comiseração ou de azarada amargura máxima. Havia risos, sim, mas já não via sequer a luz do sol quando saía daquela cave ao fim do dia (noite?) de trabalho.

Um telefonema já depois do jantar lembrou-a que podia mudar de vida. Em pouco tempo tudo se arranjou e abandonou aquela casa cinzenta, bonita mas aziada. Uma hortênsia artificial ali no meio daquela rua acidentada.

Já tinha dedicado os parcos tempos livres a dançar, no meio desse deserto monótono que era a sua vida. Mas, que diabo, tudo o que a dança lhe conseguia sempre fazer era sentir que o corpo era limitado, para sempre, àquele ponto máximo de elasticidade mínima. Pior, nunca deixava de a invadir uma vontade – bom, na verdade, uma soberba sonhadora estúpida – de ser uma espécie de talento perdido e escondido que se ia revelar e surpreender toda aquela sala rodeada de espelhos meio embaciados e fungados.

Há que lembrar, no entanto, que depender dos olhos e das bocas dos outros é triste e uma incrível perda de tempo (no sentido de perda de vida, diga-se).

Não tardou, obviamente, a saber com clareza que aquelas pessoas com quem partilhava um dia por semana, ou algo aproximado, eram piões com um fim e peões inacabados.

O querer começar, fazer, avançar, continuar, é uma vontade muito rápida, na verdade. Talvez seja assim porque leva um avanço sobre tudo o resto que anda na vida: essa ideia já cá está implantada.

Essa capacidade de ir alimentando uma ideia através da negação supera-nos: negar fazer antes, dilatar no tempo, adiar, deferir.

Deve ter sido isso que fez, como em tantas coisas na vida. Até decidir, no mesmo dia em que decidiu ir almoçar à confeitaria em vez de a outro sítio qualquer ali em redor, que ia fazer perguntas sobre aquele “curso de formação teatral”.

Até ser rápida a resposta do outro lado e o seu cruzar da porta macambúzia e que não se descose daquele Palácio.

Não soube logo nesse dia que iria ser apelidada de kamikaze. Mas não teve medo de nada: pelo menos do que estava ali a acontecer. Trataria sozinh, de se sentir sempre ridícula. Sabia, ainda, perfeitamente, que chegaria o dia em que sentiria que não chegava para o que queria sentir ou criar. E estava tudo bem com isso: era algo que a convocava por inteiro ali e a manteve insatisfeita até ao fim e mais além, sem confundir com um sentimento de derrota seu conhecido.

 

Nunca teve a ilusão de encontrar ali a vida ou qualquer ponte para a mesma nem, sequer, de melhorar o que quer que fosse em si. Havia claramente um túnel que ia do fim do seu dia, do outro lado da avenida, até lá – e, sem ilusões, tinha todo o peso das preocupações nos ombros e todas as dúvidas e angústias que permanecem nos maxilares doridos de tanto os ranger.

Mas aquilo, o que quer que fosse que ali crescia, era possível. Existia e exigia esforço, sim, mas sem um fim: era um rebolar e arremessar de ego por toda uma sala e, acima de tudo, saía-lhe do corpo e de si.

Enervou-se com o que sempre se enerva, cansou-se com o que sempre se cansa, mas ainda teve a esperança, constante, de que em cima do palco na hora H ia sentir-se a fazer, finalmente, algo que sabia, com o impacto exactamente igual àquele sonhado nas viagens de transportes púbicos de todos os dias, com os olhos postos pela janela fora.

Claro que tudo durou um segundo e ficou carregado de impossibilidades. Como ser humano que é, arranjou rapidamente um bode expiatório. Porém, finalmente foi rápida a tomar consciência que nada ali se justificara racionalmente por uma causa efeito, como sempre pretendia. A única coisa que se manteve, e deve assim sê-lo, é a responsabilidade de se dar sem se oferecer.

Entretanto, até já se riu excitadamente por ter sido escolhida para gravar um dia numa longa-metragem, resultado de um casting a que foi sem pesos nem amarras, num dia das férias em Agosto. Lá esteve, outra vez toda ela em dez minutos, com uma câmara à frente a improvisar pantominices e a detestar que não tenha conseguido imprimir um ar não sei quê na segunda cena que lhe pediram para improvisar. Aguardam-se desenvolvimentos.

É disto que esta gaiata magricela, curvada, pitosga e que range dentes, precisa.





7 09 2016

Querida mãe,

É hora de almoço. O sítio onde me sento é muito escuro. Não recebe luz directa da rua, fica lá ao fundo do restaurante e só há aquelas luzes brancas odiosas que tu sabes que me perturbam.

Ao fixar ali a prateleira dos tabuleiros, apercebo-me que não vou regressar a ti ao fim do dia. Como é que é possível? Como é que eu acabo isto? Como é que eu dou um final ao dia, para fechar ali um pequeno capítulo e aguardar qualquer coisa nova do dia seguinte?

Que porcaria de bacalhau e que grande mentira essa, de as coisas de quem amamos ficarem em nós. Não quero a memória da comida, nem sequer tentar reproduzir isso com ensinamentos. Quero, irracional e tão infantilmente quanto possível, sempre, a tua comida, que é mesmo tua, que são as tuas mãos a fazer e os teus braços e a tua posição de Napoleão na cozinha.

Que diabo, como é que eu refaço os teus diálogos e reacções a coisas novas que hão-de surgir? É isso que me interessa.

Consigo facilmente identificar um ciclo sem fim de culpa, por todas as vezes  que não te quero ouvir –  ou não ouço atentamente e só suspiro hum hum-, seguida de uma saudade imensa a meio do dia por adivinhar um fim anunciado. Normalmente, no dia a dia, tomo muita coisa como sendo impossível de resolver, irremediavelmente votada à desgraceira irrecuperável (o erro na peça, o erro na interpretação da conversa, a falta de solução de um imbróglio jurídico qualquer).

Mas, como sabes, após ver tudo branco e quase desmaiar, acabo por, ou perceber que estava a sofrer em antecipação sem motivos racionais, ou verificar que do chão não se passou e tudo acabou por se compor por caminhos que nem sondei como possíveis, na cegueira histérica.

Só que a sensação de desgraça irremediável mais forte que tenho é a da tua ausência, que convoco quase todos os dias de forma doentia.

Pus os óculos de sol que, de forma egoísta, disse que alargarias e escondi as lágrimas de imbecil.

Um beijo,

 

 





31 08 2016

“Esteticamente, é sempre mais seguro perder”.

 

Anatomia da Errância, Bruce Chatwin

 

vai buscar.





29 08 2016

sê rápida, não penses muito e diz:

desolador. senti-me desolada, com o Vertigo. sinto tanto a perda, todos os dias. tanto medo e sonhos bizarros que vou vertendo aqui.

a inverosimilhança do enredo todo faz-me ver, claramente, a tristeza da encenação.

é uma solidão fininha e assumir que nunca teria coragem para prolongar, assim, uma memória.

 

 

VertigoFlowers





26 08 2016

tanta gente que, incessantemente, te apontava defeitos, enquanto te desviavas deles ali parados, expectantes, num relvado festivo. nem tinhas tempo para sentir pena de ti própria, como o costume.

aguardavam há demasiado tempo, diziam.

não paras de andar, não te recordas sequer de ter planeado aquilo, de lhe conhecer os contornos, mas o certo é que esperam uma grande surpresa vinda das tuas mãos.

tudo a postos, pessoas dispersas debaixo do alpendre ou pelo jardim: o canhão, mais pequeno do que pensavas que fosse, assemelhando-se a um desenho animado, fica numa ponta do jardim.

não tens a certeza se preparaste bem o rastilho, mas entretanto sossegas porque dois rapazes se encarregam do resto.

em vão: uma desilusão tamanha, sem estrondo, nem clarões. Apenas bolas do tamanho de uma bola de bowling, pretas, saem disparadas e a que alcança maior distância, fá-lo para cair desconsoladamente no terreno contíguo, o milheiral.

a vergonha cobre-te. a guerra perdeu-se sem a fazeres.