17 10 2017

Mete uma mão ao bolso do impermeável comprido que ainda cheira a ela e depara-se com um papel. tem sempre uma quantidade inútil de papéis que guarda nos bolsos à espera que apareça um caixote do lixo e depois fica com medo de se separar deles, podem ser precisos para coisa nenhuma.

vê o que é, desdobrando-o. uma lista de supermercado. com a letra desenhada e redonda, imperial, dela. um Leite escrito com um L de livros de contabilidade antigos, um M de manteiga semelhante a uma gravura antiga.

uma elegância restante em sítios de luzes brancas – que odeia, e de que ela gostava tanto – como supermercados desordenados.

uma saudade de todas as coisas mundanas que um dia não viria a ter. aquela lista seria sempre a promessa de a ver mais tarde, seria sempre a memória de mais uma comida reconfortante que dava por garantida.

 

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27 09 2017

Sou uma incapaz. Atravesso a avenida cinzenta, de vez em quando, para ir esperar o autocarro (quando não me dão manias de querer quebrar a rotina com um caminho pedonal diferente para casa, que ridícula, que pequenez, que fuga). Na fila, fito dois sem abrigo, andrajosos, com as caras sujas e já de uma certa idade. Não sei se vejo ou se só adivinho falta de dentes, mas uma irritação crescente instala-se em mim por vê-los sentados quase no mesmo banco de ripas de madeira, minúsculo, ridículo, que veio povoar aquela avenida há uns anos. Mas não é só isso: ela empoleira-se nele, abraça-o muito, dá-lhe beijos canibais, há ali uma amálgama e eu só tinha que desviar o olhar, se me irritava, mas deixo aquilo crescer como uma dor de estômago. Deve ser de pensar que eles se acham superiores, de algum modo, por não quererem saber do que os rodeia. Ou por quererem saber tanto, mas não partilhar com ninguém aqueles sucos e texturas e sei lá mais o quê (que diabo, mas quereria eu que eles partilhassem isso comigo?).

 

Continuo incapaz. Vou almoçar ao pequeno café de música agradável com o patrão/empregado surdo, que passa sempre por antipático. Há uns tempos largos que não via aqueles dois, mas encontravam-se tal e qual os havia conhecido há cerca de dois anos. Ela senta-se sempre ao lado dele, virados para a porta. Ela sorri-lhe sempre e gargalha, ele também sorri, ela pendura-se ao pescoço dele, beija-o, mordisca-o, inclinam a cabeça em beijos longos , o almoço todo, a sobremesa, o café. Um ar de devoção que me tira do sério.

Mas, quem me diz que ela não sabe o seu exacto valor? e que pode perfeitamente ofertar-se, nunca se perdendo? Como se tivesse que carregar alguma bandeira minha, pelos meus falhanços. Como se eu, sendo hirta, escondida, envergonhada de demonstrar um único afecto na rua, me desse menos, me perdesse menos, me despedaçasse menos. Obrigo-a a carregar uma verdade qualquer que consiste em afirmar que qualquer gesto daqueles, parecidos com os dos animais, são uma manifestação qualquer de desprendimento de nós e do nosso valor e da nossa identidade ou raio que parta.

Obviamente que digo com toda a segurança que aquilo é um arranjinho. Claro que tudo se confirma só por entrarem num carro, em frente àquele café, na Baixa, para irem para outro lugar, quando aquilo é um café onde iam comer após o trabalho. Ninguém se vai movimentar numa hora de almoço para longe do local de trabalho, só porque sim.

Dois anos e pouco. Tanto mudou comigo, nada mudou com aqueles, essa é que é essa, sua incapaz. A tua descrença nada mudou nem nada manteve.





1 09 2017

Não há encontros, nem encontros de contas, minha crente. Quer dizer, nem chegas a ser crente. Tens sempre o cepticismo pronto a rebentar da boca, expondo muito facilmente a troca de mercado que existe nas relações humanas, e depois és só um cão tolo a correr ladeira abaixo com a língua de fora e as orelhas a abanar.

ninguém vai pagar nada, porque não tens crédito, nem és a dona das infracções de um código qualquer que inventaste sei lá quando e que te invista no poder de cobrares multas e coimas.

é mesmo assim: há a possibilidade de seres absolutamente dispensável, tu, pessoa, real, e  tu, tal como desejada e imaginada por alguém. há alguém que assenta melhor, por conveniência, comodismo, eterno inatingível que tu, com todos os esforços (e que achas , de hoje para amanhã, tanto muitos como poucos), não consegues suprir nem conseguirás.

tudo se passará e constatas que vais acumulando pessoas por quem chorar quando morrerem ou ficarem doentes, mas a quem não vais poder cuidar, que não vão querer que cuides delas, e que ficarão para sempre nos teus soluços.

 

 





9 08 2017

Alguém que se sente sozinho, frio, amorfo e perdido quer agarrar a vida, num outro porto que não o de sua casa.

Encontra-te, de passagem, na vida ou num edifício.

E se forem estes os braços? Há tanto que não tenho um sopro quente de vales ou de terras, bem podes substituí-lo. Vou, até, fazer o meu melhor para te imaginar com as curvas, contra curvas e calor de lá de casa, lá de longe.

Ninguém te propõe que sejas um paliativo: dizem-te que serás sempre mais, serás tu mesma finalmente, com um lugar no mundo e valor próprios. Serás uma nova cidade, até.

Em Roma sê Romano, em amor sê… qualquer coisa, desde que pareças que vais ser adaptável aos costumes de quem te recebe, um pouco fascinado até e muito agradecido.

És, portanto, um vaso que vão tentando construir para uma raiz qualquer que perderam no fim dos tempos. És a cidade onde querem atracar, mas sem quererem construí-la, tão pouco.

 





3 08 2017

Dói-me o maxilar. Deixo-me sempre dormir e esqueço-me da goteira, estava a ir tão bem. Nem para mim sou boa.

Os olhos colam e a luz não me chega a ferir mas não consigo, simplesmente, manter os olhos abertos de forma normal e devo ir a franzir o semblante o caminho todo do percurso do pequeno autocarro.

Descubro que posso encostar a cabeça ao vidro, óptimo, está fresco. Ouço uma música de que fiquei a gostar no dia anterior e, nisto, vejo-o.

Passa a pé na rua. Magro, de mochila moderna, de óculos de sol (mas sei-lhe as feições), ao telemóvel e, já pela segunda vez que o vejo na rua, a sorrir.

Esse mesmo homem escreveu palavras amargas e cantou-as. Palavras que eram, na minha proto adolescência, a mais pura verdade, evidência, triste conclusão sem saída a não ser aturar-mo-nos na porcaria que somos inevitavelmente e para sempre amen.

Como é que não viam isto? Claro que quando se ama é para mostrar. Claro que todos procuramos apenas um pequeno altar para nós e andamos aqui a alimentar conceitos sem ter a consciência, pura e clara, daquilo que, de forma animal , queremos dos outros, em capricho. Ele dizia isso, juro, diz quem ouviu que nos concertos antigos também dizia, e eu, que não devia ser nada daquilo e nem devia ter aquele feitio verdadeiramente falando,  – ainda assim –  aquela verdade que alguém me mostrava em canções fazia-me sentir, de alguma forma, superior.

Eu, esta pateta alegre que só tem consciência às vezes.

E nos concertos que pude milagrosamente ver dele num regresso emotivo, estava um doce.

Já o vi subir a rua Sá da Bandeira de sorriso doce e braço por cima do ombro da mulher.

Vejo-o agora a sorrir beatificamente. Agora, que estou uma cínica mal composta (deve ter sido só à força de repetir os mantras e de colar com saliva as notas para me lembrar de ser amarga às vezes).

Mas gostei tanto que aquela figura esguia me lembrasse dos inúmeros filmes construídos que eu fazia para uma vida em consciência – e de tantas oportunidades que perco para, na minha vida (não na dos outros), pensar de uma vez por todas em quem sou eu e onde estou nos meus gestos.

 





27 07 2017

Faltam-lhe os dentes. É curioso como fixei tanto o tom de voz dele e como, tão inconscientemente, lhe tinha a dicção também fixada. Que agora já não existe.

E a dicção mudou e o tremor de voz é diferente. Não existia antes, vou dizer que é da emoção porque o conheço quando vem de dentro de mim.

E recordo-me como brincava tanto com a sua pequena prótese de dois dentes pequenitos frontais – que eu jurava serem iguais aos meus, trocando as voltas à cronologia da genética. Deixava-me pegar na prótese e não me fazia impressão, como a da minha mãe. Achava piada porque parecia ter espinhos , era recortada de forma estranha e não conseguia compreender que era meramente utilitário.

 

Era uma pequena coroa. Era.





28 06 2017

-Gostas da casa?

Gostava, sim. Era curioso como tanto gostava de casas antigas recuperadas, e que achava mais diferenciáveis umas das outras – o que lhe agradava – como também de casas assim modernas, brancas, sem protuberâncias de armários nas paredes. Os corredores eram longos, havia luz que não feria. Quase não podia acreditar que ia morar ali.

-Gosto muito – balbuciou quase inaudivelmente.

Não conseguia libertar voz porque se sentia, ainda, perplexa e desconfiada. Ao que lhe parecia, até ao dia anterior, tinha vivido sempre com algum aperto, tudo bastante controlado no descontrolo, tudo muito previsível num futuro próximo quanto a possibilidades, novos voos, novos sítios. Até porque era um ponto de honra manter a casa anterior, a de sempre, a que não era delas mas que tinha a vida delas toda lá dentro. Como raio é que tinha ido arrendar aquela casa?

-Mas e a outra casa?

Tanto queria voar, mas tinha muito medo de ter que se despedir da casa. Tinha-se realmente moldado às suas recordações. Não é que, quando se sentava no sofá, se lembrasse todos os dias da infância feliz e a visse ali. Mas ela estava ali, impregnava-se nela sem que a precisasse de evocar. Em tempos sentira a casa hostil e tinha detestado. Agora, não ansiando propriamente regressar a ela ao fim do dia , sentia que a acolhia sem perguntas. Não a queria deixar.

  • Ficamos na mesma com ela, esta é provisória e podes vir vindo para aqui.

Isto soltou os alertas todos. Duas casas, duas rendas? Impossível, recusava sequer a aceitar esta facilidade súbita como real ou sustentável. E se havia coisa que lhe punha o sangue a fervilhar, eram estes rasgos à grande Gatsby.

  • Mas como é que é possível? Onde arranjaste o dinheiro? A sério, quem está a pagar isto?

Pela primeira vez hesitou na resposta, desviou-se e traiu-se absolutamente num motivo velado por trás daquilo.

Mais tarde tudo se tinha deslindado: tentações e facilidades oferecidas por governos obscuros que sempre tinha criticado e ela era apenas uma ponte no meio de intrigas palacianas. Uma mulher que tinha sido sempre íntegra, afastada do poder, deixara-se levar por aquilo: talvez pelo medo, que sempre lhe tinha mordido os calcanhares, de ficar sem nada.

As intrigas descobrem-se, anuncia-se um julgamento.

Ficara revoltada com o desmoronar da heroína aos seus olhos. Não estava desiludida, nem vazia, como um pedaço de cortiça seco, mas antes revoltada, cega, sem ar. Queria estar ali no momento em que seguissem para o julgamento e assim foi.

Vê os condenados passar pelo corredor , entre eles a mãe, e grita-lhe muito apontando-lhe o dedo, em riste, até se conseguir aproximar dela. Sente a garganta prender-se, julga-a, faz recair a culpa de tudo o que vai acontecer daí para a frente sobre ela, sobre o seu discernimento, decisões tão petulantes e inflexíveis que agora era evidente que, finalmente, a haviam tramado.

Queria apenas reforçar-lhe, até ela admitir qualquer coisa, que mais valia ter torcido, que mais valia não achar que tinha sempre certezas, que tinha de uma vez por todas decidir se tinha princípios ou se não os tinha. E gritava-lhe isto muito perto.

Num segundo, ajeita-lhe o colarinho da túnica de cor branco sujo, de linho, que  envergava. Porque percebe num segundo que aquela roupa e o cabelo cortado curto e desalinhado significavam que caminhava para o cadafalso. E então chora, chora desalmadamente agarrada àquele colarinho, com os músculos da cara e do pescoço a contorcerem-se, nunca tão facilmente quis largar o que dissera antes, deixar de acreditar em cada palavra, que se lixe a tua coerência ou  a tua faltade flexibilidade ou o teu sempiterno tenho razão. Tão facilmente se vergaria de novo, deixaria de querer lutar pelo ponto de vista, abdicaria de deixar inscritas aquelas palavras tão vãs de acção quanto dolorosas e com efeitos nefastos.

Só para que ela não caminhasse para o cadafalso.