de cada vez que entra

na sala

na casa de banho

na cozinha.

abre a boca

fecha

abre a boca

fecha.

encostado aos umbrais.

do outro lado

“Aquela Elisabete, que nervos”

um

“Levaste o lixo?”

Um

“Os voos estão baratos”

este voo será de graça

pensa.

a pique e

nada.

os peixes

não se sentam para conversar.

naquele tempo

não havia ecografias.

não foi surpresa:

foi tragédia

feliz e doida.

um ovo

rosácea

trevo de quatro filhas.

quatro camisas

de oito varas e

nenhum som ouves.

todas as palavras

estão dentro

de cada uma.

todas se ouvem

e nada pode o mundo

contra este rosário

de mulheres.

descem abraçados

cintura enlaçada

indolentes.

parecem impossíveis

manhã cedo

dia de semana.

lançada no autocarro

apenas um lampejo

inocente.

desço para subir

sísifo da vida

mundana.

ainda tenho a sorte

de cruzar

o olhar

com a metade.

desliza

já só ela

saia em vela

dona da cidade.

ali logo percebo

a mão que segurava

empurrou.

lançado ao submundo

irá dizer

que só então voou.

não sei

por amor de deus

palavra de honra

pela saúde ds meus pais

já disse.

não sei

onde nasceu a criança

se foi no meio do trigo

em casa

na estrada

antes depois ou durante a jorna.

não estou a mentir.

por favor

não sei

em que sítio das costas lhes dói.

se hoje

quando vão ao café

cumprimentam numa vénia sem retorno

e como estão os joelhos

se ainda podem arrancar mimosas do chão.

por favor

pelo que é mais sagrado

deixe-me ir.

eu estou a dizer a verdade:

não sei.

se a mãe sonha ver o mar

comer fora

ir ao médico.

se o burro as leva longe

ou só onde é preciso

e de um a dez

quantos dedos ainda têm

e quantos ainda conseguem agarrar os talheres.

não sei,

juro que não sei.

pois não.

não queremos que saibas

quando passo

pelas montras das lojas de mobília,

fixo muito a cama

eternamente feita.

alguma vez alguém ali se deitou?

chorou

preocupou

fez promessas de cortes absolutos na vida

sonhou que ia à casa de banho e

quase molhou os lençóis?

sempre o mesmo

edredon

almofadas

para que serve a luz da mesa de cabeceira

se ninguém lê ali.

e se um dia

alguém se recusasse a regressar a casa

entrasse na loja

vestisse o pijama

e se deitasse.

Meu corpo

Que escondi sempre

Como nunca fiz com a palma da mão.

Que grita de cãibras,

Em terra e mar,

E não estica, nem encolhe, quando o comando.

Que agride em arestas.

Está agora partido, enfaixado e horizontal.

Lateja,

como furna inevitável.

Falha tectónica iminente.

Já lhe sinto a falta. Lamento

As falhas que só eu vi.

Meu corpo

Que deitada na cama vejo

A ser despido

lavado

e embrulhado num sudário sem mancha,

só calvário.

Corpo torto

nos braços do cangalheiro que não me conhece

                                                                                   E pior

que não me quer conhecer.

É levado por

Estradas, rios e carris

até à estação e sobe com os outros.

No tapete rolante e ascendente

Bagagens com bagagem.

Do dez ao zero,

Contagem descendente e

Fogo e

fuga

Adeus, pequena esfera atormentada,

Olá, vazio sideral:

A escotilha abre-se e lançam-no,

indesejável e incómodo.

Para não mais encontrar o caminho de volta.

Silenciando o coração e

partindo o cérebro

Rebelde

amante e, finalmente,

sem corpo.

Meu corpo

Que deitada na cama vejo

Como um objecto no espaço.

Da janela vejo uma marquise decrépita com ferro enferrujado, alumínio e janelas de vidro fino com relevos. Desde sempre que vejo, também, uma estante de alumínio com produtos de limpeza na prateleira do topo. Poucas vezes vejo alguém assomar a essa janela e só se vê a ombreira da porta de madeira, por dentro.

Mas atentei sempre que, quem quer que seja, tem sempre cerca de cinco embalagens de líquido de lavar a louça amarelo. Nunca o número de embalagens diminui. Até hoje.

Hoje, vi alguém a ir à prateleira e a retirar cada embalagem segurando-a na mão direita, lendo-lhe o rótulo, e comparando-o com outra embalagem de líquido de lavar a loiça verde que segura na mão esquerda. Vê um por um atentamente, volta a colocá-lo – só com a mão direita-, ajeita-o, passa para o seguinte.

Devo ter desviado a atenção cinco ou dez segundos e agora vejo que há menos embalagens do que me lembro, mas não me parece que a senhora os tenha levado em braços. Será que já lá estavam menos?

Como é que são repostos? Deixam ficar um lugar vazio? Quem é que precisa de ter sempre cinco embalagens de líquido de lavar a louça?

Só lá vejo dois, agora, e a angústia cresce porque não vi se os outros já não estavam lá ou se estavam e foram levados, e se sim para onde e com quem. Não vi ou não recordo? Era um bando de embalagens de líquido de lavar a loiça que nunca deu por mim e eu só penso nos truques que prego à minha memória. Porque sou eu que o faço para a culpar, por exemplo, de se lembrar de ti e julgar que não foi recíproco. Mas depois vejo que aquilo que falha são as recordações, e não propriamente a memória, porque quando penso em ti na paragem de autocarro chamas por mim passado uns minutos.

Nem precisei de duvidar se te vi ou não, como com as embalagens. Sei que bastou uma vez e que a memória não me atraiçoa. Antes, sou eu que ponho e disponho dela, sem deixar que se torne uma recordação .

Descobri a tua letra acidentalmente sem ter tido a oportunidade de te pedir que me escrevesses uma frase qualquer num papel, como era minha intenção.

Conhecemos pouco a letra das nossas pessoas e eu passei a infância e a juventude a pensar que todos tinham uma letra pujante, como a da minha mãe, e o resto do tempo dediquei a estragar a minha em arestas amargas e impacientes.

A tua letra apareceu num documento aborrecido com assinaturas, tomadas de palavra, resoluções e deliberações. Sempre pensei que a tua letra fosse uma sucessão de rectas, tortuosa, quiçá um pouco esguia. Afinal, não é. Tem a confiança de peito dilatado em plumas que costumas trazer. Redonda nas três letras principais, mais amigável do que alardeias ser, e tão melíflua como efectivamente és.

Dois ou três laços onde o meu dedo mindinho se enrolaria lentamente, como que vogando debaixo de água numa dança de acertos de alvo ainda mais bonita do que aquela que já conheces. Esperaria que se estreitassem até sentir o aperto justo e lento, indicador de que ali há vida mas que não deixo de ser uma presa e estou por segundos.

As restantes letras do teu nome apertam-se entre as outras, tal como os teus silêncios, reservas e indiferenças escapulidas pé ante pé.

O fim da assinatura é, como não podia deixar de ser, porque vindo das tuas mãos, disparado contidamente em várias direcções, mas de forma precisa. Como que dando por terminada a conversa sem mais delongas e empurrando-me para fora da página acompanhada de um mantra repetitivo e contraditório com que firmas a tua recusa em querer ver a minha assinatura na mesma página em que a tua figura, lado a lado, talvez num dia de primavera a cheirar a magnólia, com uma mão cheia de amigos e família.

Uma acta, por fim, desatada.

Era já noite, nem sequer aquela hora do lobo de que tanto gosto, que empresta o cinzento azulado a tudo. Noite na Avenida dos Aliados, apesar de ainda nem ser hora do jantar. Com luzes amareladas dos lampiões, sem chuva a chicotear.

Sou míope, mas ando corrigida. E espero que fique verde, na passadeira. Ultimamente, esse verde teima em chegar por causa do trânsito tonto que flui ora de cima, ora de uma rua de onde antes não desembocava. Insisto sempre no botão, irritada. Como quem não desiste sabendo que vai perder.

Nisto, decido parar e olhar. Deixar-me de masoquismos, mas mais motivada pela curiosidade pelo que não percebo: do outro lado dos paralelos, já perto daquela espécie de espelho de água, no chão, vejo movimentos sacudidos logo interrompidos por imobilidade, como num filme que é acelerado artificialmente ou aquelas filmagens de natureza a apodrecer. Passa-se junto ao chão, na sombra das árvores que vão crescendo (e como é caricato que, mesmo de noite, ali haja sombra). Não consigo perceber o que é, o que me faz suster a respiração muitas vezes: acontece-me quando não percebo o que vejo, além de, curiosamente, ficar meia surda, e não ao contrário como manda o aperfeiçoamento natural.

Parece um saco pequeno, preto, levado pelo vento. Mas não, não será, o movimento não se adivinha tão solto como costuma ser o dos sacos voadores. Parece que não se levanta do chão nem sequer para se deixar ir, qual Ofélia no rio. Tem umas arestas estranhas e tão depressa estrebucha e tenta subir, como se agarra ao chão em sacudidelas de desespero.

Agora anseio o verde mais do que pela irritação e pela vontade de não parar a marcha. Quero ver de perto, ainda que sentindo uma ponta de receio: chego a pensar, e se é um morcego? E se me arranca os olhos mal me aproximo? E se me morde o proeminente nariz?

Sinto também alguma vergonha. Sei que quem está em volta, ora tirando fotografias para desejar boa noite aos seguidores com a câmara na frente e a Câmara nas costas, ora esperando o que não se espera naquelas cadeiras minúsculas, vai ficar a olhar para mim, ali especada para o chão. Só eu, sem uma lanterna, propósito percepcionável, companhia, posição de repouso ou passagem. Apenas eu de pé, a olhar para o chão, debaixo das árvores que não protegem de nada, muito menos agora.

Mas assim fico e concluo finalmente que são dois pássaros parecidos com melros, pretos, à bulha, como se fosse um grande pássaro apenas com múltiplas asas e deformado. Lutam ferozmente por algo que um deles tem no bico. Não chego a conseguir ver o que é.

Sentem-me e afastam-se. Esta luta não é tua para veres, às tantas vens aqui tentar separar-nos ou comer-nos aos dois e isto é uma conversa entre asas e bicos, segue o teu caminho se não queres problemas, olha que já sabes que não gostamos particularmente de ti.

Conseguem voar até um ramo e continuam num chilreio nervoso, diferente, pegados um ao outro, as asas cobrindo o adversário, e caem de novo ao chão, numa fúria de foguetão ou kamikaze, que quer colidir com a terra.

Aproximo-me e lançam-se, juntos, com uma rapidez impressionante para quem pareceria tão absorvido em pancadaria, para a água esverdeada em socos constantes. A água fica agitada, fazem mais barulho do que estariam à espera e, subitamente, um dos pássaros desaparece da minha vista – tive algum pudor em aproximar-me e olhá-los fixamente, que ridículo- e o outro voa triunfante para o ramo da árvore de onde tinham caído. Agora sim, olho-o com calma. É cinzento muito escuro e nem se digna a olhar-me. Solta um chilreio vitorioso. Do outro nem sombra, literalmente.

Contorno o espelho de água para continuar o meu caminho e, já do outro lado, vejo que as duas garotas com seguidores decidiram, desta feita, seguir os movimentos dos pássaros e, sem pudores, espreitam para a água. Também eu vejo, mas a uma distância que respeita o vencido sem o achincalhar: o outro pássaro encontra-se quase colado à parede, tentando equilibrar-se num rebordo e esconder-se do adversário.

Deixo-os, espantada por não ter visto um telemóvel em riste a filmar esta contenda como é apanágio dos nossos tempos. Com pena do perdedor, mas sabendo que não devo senti-la, porque não sabemos onde começaram nem onde acabam estas histórias.

Como, de resto, com todas as outras.

A noite na rua da cidade nunca é, verdadeiramente, noite. Por muito incompetentes que sejam os edis, costumam surgir os lampiões, ainda que um ou outro aleatoriamente desligado sabe se lá por que vontade de resistência.

E assim foi: rolávamos de carro pelo paralelo que brilhava pela chuva, casada com o reflexo dos lampiões, já a chegar a casa. A primeira coisa que vejo são umas botas. Depois, percebo que têm gente dentro e que estão de lado, uma por cima da outra. Em pouco tempo concluo que será alguém em posição fetal, com umas botas claras e que ficam amareladas à luz dos candeeiros.

Abrandamos mais à frente e a janela de trás do carro servirá de ecrã para o que acontece. Um homem junto à figura, um jovem no meio da rua com um cão pela trela a dirigir-se hesitante, uma jovem mais afastada a descrever um círculo alargado, tentando não se envolver no quadro.

É uma mulher. Tentam levantá-la pelas axilas, os ombros estão moles, mas a cabeça não está propriamente inerte. Mal fazem menção de a largar, é ela própria que mergulha no chão escondendo a cara nos braços cruzados por baixo da cabeça. Como se preparasse para uma sesta em cima da mesa de trabalho ou após o jantar, com os braços de almofada.

Está em protesto, mas não abana a cabeça. De cada vez que o homem a tenta erguer, ora por um braço, ora pelas axilas, algo desajeitadamente e também já vencido, ela lança-se controladamente nos paralelos, quase como se se quisesse fundir com eles, num movimento quase de bailado contemporâneo.

Penso depois que, se eu a quisesse levantar, encostaria o meu peito e coração às costas e faria dela um segundo corpo meu, mas talvez fosse precisa alguma raiva, e nada disso paira ali.

Os carros passam perigosamente perto daquela cabeça que não deveria estar ali, mas ali vive-se um outro tempo, sem paredes que escondam todas as frustrações, raivas, birras, desistências diárias.

O homem retirará o corpo dali para onde? Para que sítio com chão, paredes, tecto e molduras com retratos se arrastará aquela fugitiva? Quantas coisas quer aquela mulher deixar de ver, sem perceber bem se quer para sempre ou até o dia raiar?

Lembro-me muitas vezes, noite alta quando o coração me aperta numa hora infinita, que pinga sobre a minha testa e me faz tremer, que gostaria de me deitar de costas no meio de uma estrada ou de um cruzamento. Especialmente um cruzamento. Nunca ninguém os ocupa, nunca nenhum pensamento grandioso surgiu na cabeça de ninguém ao passar ou ficar nesses sítios. E espero, com algum desespero, que me surgisse alguma ideia brilhante de parar de pensar nesse momento e espaço.

Não há ideias brilhantes quando nos jorramos nos paralelos da rua. Nem , sequer, ali estamos. Pelo menos imagino que os olhos dos outros sobre nós deixem de importar e isso, ainda que fugazmente, pode ser libertador.