21 11 2016

ela é a única pessoa que me vinga.

que cospe na cara do indivíduo que não me pagou. que lhe gritará

“boi caloteiro”

naquela voz muito estridente que assume quando se irrita.

é, também, a única pessoa que mata(va). já mo demonstrou, fisicamente. já lhe vi a faca na mão, a lixívia na mão, já lhe vi os olhos vítreos e a boca a espumar.

vinga-me.





18 11 2016

Ontem caminhei por uma estrada montanha acima, daquelas sem rails laterais, pelo meio do nevoeiro denso, quente e húmido, sem fôlego. Ontem corri para olhar para baixo, para a encosta abaixo daquela estrada. Estiquei o tronco para a frente, braços para trás para contrabalançar o equilíbrio.  E olhei, olhos nos olhos, um homem caído de costas, congelado, morto. Coberto pelo gelo que se formara, numa película igual à dos frigoríficos. Olhos muitos abertos e boca não tão aberta, mas parecia estar algo encolhido nos ombros, como e já não tivesse aguentado mais suster a respiração e só se procurasse aninhar.

Hoje subi a um torreão de pedra cinzenta gasta e musgo, para ver os telhados da cidade. Hoje vi dois rapazes que saltavam de telhado em telhado, muito rapidamente, que passaram por mim em fuga, correndo ao longo das ameias e vi um deles saltar para um telhado, escorregar, deslizar, gritar e partir-se. De longe, vi o perto: vi um tronco torto de papel amarrotado. Ouvi, como se no meu ouvido, um grito de dor derrotado.





9 11 2016

Quando vejo uma sombra de casacos e sacos ao meu redor, hesitante e sem se mexer muito, fico logo apreensiva e penso :”bom, já me está a avaliar, vou já franzir a testa”.

Assim foi: lentamente, pousou o saco da loja dos trezentos, de plástico e padrão aos quadrados em cima da mesa, ficou de pé, a ocupar-me o campo de visão mais próximo enquanto me ocupava de um doce e de um salgado.

“oh menina”

começa a inclinar o tronco

“consegue tirar-me isto aqui do telemóvel? quero mandar uma mensagem e isto agora não deixa, nunca aconteceu isto”

nisto o telemóvel desliga-se, reinicia e ficamos ali num silêncio de espera constrangedor em que só me ocorre dizer

“o da minha mãe também se desliga assim”.

Volta ao activo, volta a inclinar-se, vejo-lhe os dedos que envolvem o telemóvel e quase nenhum tem unha, são só tocos informes. Tento concentrar-me no ecrã e o problema é a substituição do teclado por um microfone. Tento carregar nos ícones que mais logicamente levariam à solução, mas sem sequer avançar por domínios novos.

“eu nunca vi isto acontecer”, digo-lhe, “não sei bem qual é a lógica disto”

“a mim também nunca me aconteceu, queria mandar uma mensagem e não consigo e queria” , e a voz dele assume um tom contrariado, de urgência. insiste comigo, como se eu estivesse de má-vontade em resolver um problema que nunca me tinha surgido a mim. Curioso que, na vida, automaticamente nos desculpamos com a falta de experiência pessoal para justificar a nossa ausência de resposta. No trabalho, já não ousamos dizer isso.

persisto a carregar em vários botões e os meus olhos sobem para a conversa. Renata diz

“to dizendo que não vou”

e segue se resposta:

“xau fim”

e outra igual, do outro lado,

“xau fim”.

Julgo ver um “amor” lá mais para cima.

Daí a urgência – passo rapidamente ao paternalismo de perceber aquela urgência com uma vontade dele em dizer algo para desfazer aquela frieza e aquela violência. Começo por ter logo a certeza que ele vai dizer

“gosto tanto de ti, deixa-me ir ter contigo, não podemos ficar assim, blablabla”

e se calhar só iria surgir um

“sempre te odiei” qualquer – que, ainda assim, nunca penso que seja verdadeiro, porque ninguém se compromete assim com um ódio, sem antes partir de uma desilusão qualquer.

“Pronto menina obrigada” e vai a bufar, genuinamente irritado pela minha inutilidade, de saco às costas.

 





3 11 2016

Em criança, lembro-me de ser enganada, para comer a sopa, através das revistas “Maria”. Nada de escabroso: apenas folheava a revista até à folha das fotografias das crianças que faziam anos, e demorava-me a saber os nomes e feições delas.

Eram todas muito diferentes e recordo-me de gostar mais das mais velhas, por se diferenciarem mais umas das outras, naturalmente.

Facilmente inventava histórias de vida daquelas Marlenes ou Marianas e ambicionava, secretamente, que alguém me desse os parabéns assim.

Gostava que fossem quadrados pequenos e acho que às vezes os recortava, com a ambição de colar algures com aqueles tubos de cola com esponja cinzenta no topo.

Hoje descobri a página de pessoas desaparecidas da Polícia Judiciária. São quadrados pequenos, seguidos dois a dois, com quase os mesmos dados que apresentava a revista Maria.

As pessoas são, na maioria, mais velhas, mas também há fotos com as cores dos anos 90 e rapazes e raparigas cuja idade actual é igual à minha. Em alguns casos, temos uma descrição sumária e racional do que foi o último aceno mal humorado antes de sair de casa de manhã.

Alguns desapareceram há pouco tempo. Acho-os todos mortos. Estão, todos, no rio, num vale, numa beira de estrada. Como é que se caminha para tão longe? Como se foge sem intenção? Como é que se caminha para nunca mais voltar, querendo?

Como é que se foge para casar e nos esquecemos de nascer?

Quantos dias são precisos para desconhecer aquela pessoa que nos era a carne? Se voltassem, nada eram, então para onde foram?

Morreram todos, olhem o que vos digo. Tenho sempre a hipótese de um acidente, uma morte mal calculada ou algo que a pessoa não devia ter visto (e se calhar nem viu) e que lhe mereceu uma marreta na cabeça, para se silenciar.

Há sempre alguém que nasceu para não existir.





25 10 2016

nunca tinha sentido saudade de um amigo sem ser por me zangar irremediavelmente e os caminhos se afastarem.

portanto, ter a saudade de alguém cujo caminho físico se afasta como um elástico lasso e feio.

aperceber que é uma mentira quando se diz que, de qualquer forma, cinco dias da semana são passados numa rotina que nos afasta os olhos.

parece, talvez, mais fútil pensar no teatro mais barato à semana que se vai perder em conjunto, ou mesmo num lanche combinado à pressa. mas é nisso que consiste a nossa teimosia diária em negar que as células se estão a ir, independentemente de qualquer coisa que o façamos.

essa teimosia parece ser a única coisa em que consigo persistir ou ver algum laivo de força, digamos assim.

curioso como pensei logo num ponto de fuga, meu, daqui para lá. como se conseguisse manter duas vidas.





19 10 2016

i) Parece que chegámos a uma baía que será semelhante a uma Montecarlo ou outra italiano-dourada qualquer.

Está um céu de fim de tarde escuro , cinzento-escuro a ameaçar chuva da grossa.

Sigo-te para a casa de banho daquela bomba de gasolina e falo-te por cima do teu ombro direito:

-“Mas porque é que não voltas? O que é que eu te fiz?” – adopto um tom lamuriento, meio esperançado que isso te faça esquecer tudo.

Passas as mãos na cabeça, da fronte para o meio, a alisar e apressionar o cabelo em tensão e a esconder a cara, simultaneamente, para baixo.

-“É complicado, acredita, é complicado”.

Pela primeira vez não quero terminar aquela conversa antes de ter uma resposta e, quase infantilmente, repito “porquê?” , a ver se venço pelo cansaço. E parece que sim:

-“Porque não gosto da tua mãe”.

E eu, incrédula, renego-a naquele momento. Afasto-a, asseguro que haverá forma de em nada tocar – que estúpida, quando na ponta dos meus dedos e da minha língua lá andará ela, sempre, a saltaricar.

ii) A casa está, finalmente, vazia. Vazia de móveis com nunca me lembro de a ter visto. Penso alto

Que pena a cozinha quase nova ficar toda aqui.

Olho fixamente para todos os tacos, uns claramente mais claros e conservados por terem tido móveis e tapetes em cima. Quero ficar deitada neles para sempre, não quero sair e tenho o tempo contado.

Até a gata surge a bambolear-se para se despedir de mim, como sempre fez por aquela casa fora. Sinto que ali, naquela sala e paredes (por esta ordem, à medida que levanto o olhar), consigo finalmente lavar a alma sem derrotas e chorar.





13 10 2016

Corro preocupada do quarto da minha mãe à sala. Por alguma (ou nenhuma) razão, encontro-o lá (quando há anos que foi banido, sequer, daquela entrada).

“Não sei o que se passa com o pássaro e nem quero tentar abrir a gaiola”, digo.

Ele vem calmamente comigo. Debruço-me sobre a gaiola e olho o canário bem nos olhos. Nisto, cai rígido, mas vivo, dentro do que parece ser o repositório da comida que se soltou. Ele de lado, penas, sementes, um olho aterrado.

Eu apreensiva, imóvel.

Como já o vira fazer (e me parece de uma audácia ou imprudência intolerável, apesar das circunstâncias o exigirem), abre a porta da gaiola e segura o pássaro.

Nesse momento pensei: tem tudo controlado, incrível, sabe fazer tudo – até pegar num pássaro sem medo, quando nos afastámos há tanto da natureza.

Todavia, num ápice, as asas do canário começam a agitar-se, batendo tanto que deixam de ter espessura a olho vivo, parecendo apenas uma mancha semi-transparente amarela.

Não o consegue agarrar e foge. O canário foge pelo quarto, atordoado.