2 04 2018

Confesso para mim, inaudivelmente: não quero sentar-me naquela mesa, ao lado daquela senhora velha, por causa do seu olho direito vítreo.

Sempre me atraiu de forma fatal e me inundou de um terror desconhecido ver aquela cor branca nos olhos todos. Aquela névoa.

Tinha gestos lentos e hesitantes, muitas sacas de papel e coisas espalhadas na mesa, e isso enerva-me. Aquele sítio é dela, de alguma forma, e sinto-me sugada para lá.

Claro que nos sentamos ao lado da mesa dela.

E a história que eu queria avidamente ouvir, mal começou a desfiá-la, foi a do filho de três anos que lhe morrera havia muitos anos.

Esse filho juntava-se a um outro de dois anos que morrera inchado. Aquelas mortes misturavam-se com as vezes em que mudara de casa e era difícil distinguir à primeira o tom com que contava uma e outra coisa. Era uma tristeza morna, como um som baixinho e monocórdico, lento e doce.

Mas o filho de três anos, esse filho de três anos, quase arriscava dizer que lhe custa uma dor diferente. Não maior: diferente, uma dor mais ansiosa.

Rapidamente me resolve a curiosidade e diz que foi todo queimadinho que morreu.

Tinha que estar a trabalhar no campo, tinha que ser, com o marido, andava à jorna.

Não percebi se foi para lá da Régua, se na Póvoa do Lanhoso, confundia-se o sítio da criação da senhora com o sítio do seu coração desfeito.

Não estava lá, se estivesse não morria, não acontecia – uma certeza imensa de que ouviria e veria tudo a tempo, que salvaria, que lançaria o corpo sobre ele, decerto, apagando-lhe as chamas a lamber o corpo.

Estava lá a filha, mas logo a desculpa – ele saiu levezinho da cama para não a acordar, não ouviu.

Pegou nos fósforos que estavam na beira da lareira, sabe perfeitamente: o que aconteceu, onde estavam (onde os deixou, adivinho), e sabe ainda o frio e gelo que ali fazia. Sabe a necessidade imperiosa que o seu menino, já tão ajuizado, sentiu e a intenção clara e demoníaca que tinha de se aquecer a resultar naquele roubo, naquele silêncio perene, naquela despedida nunca feita.

Nunca antes tinha ouvido alguém dizer que tinha a certeza que teria evitado a tragédia.

A dúvida sempre permeara, de uma forma ou de outra, as interrogações e choros de quem ia ouvindo ou de quem ouvi falar. Aliás, antecipei eu sempre essa dúvida no outro.

Não culpou o destino, nem deus, nem a filha, e parece-me que nem a si mesma: só  a certeza bruta de que se estivesse lá nada daquilo teria acontecido.

Superaria o tempo, o desastre, uma força da natureza contra ela e um corpo pequeno.

O padre levou-o até ao hospital. O último estertor, mal chegou (uma precisão temporal a que não assistiu mas que se soma às suas certezas).

Não havia camionetas, nem ambulâncias, nem hoje há, diz-me, em tom de crítica (e é notável como alguém com mais de 85 anos consegue pensar no tempo todo até hoje e preocupar-se com isso, quando o passado foi o presente mais envenenado que teve, com o seu quê de vertigem e precipício a que se quer, irresistivelmente, lançar).

Repete em ondas pequenos pormenores desse desastre, mas consegue rir-se se alguém lhe adivinha o nome e diz que olhe adivinha o nome por ser qualidade de bruxa.

Não se amedronta, não estremece, ri levemente. Ri quase descrente, sem amargura nenhuma. Bruxas, deus, ela, a vida, dois filhos perdidos.

 

 

 

 

 

 

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23 03 2018

chego a pensar que comprou uma caixa de palavras, uma encomenda delas, com um prazo de validade ou duração previsível.

e que, entretanto, lá acabaram.

talvez as tenha recuperado numa loja de antiguidades ou de recheios de casas: então, seriam antigas, já suas conhecidas, e com aquele cheiro a interior de gaveta de madeira velha.

a duração média deve ter sido a mesma. após, seria um jogo de quem se mantém mais tempo em silêncio, como num mosteiro inventado cheio de hábitos potencialmente letais.





14 03 2018

parecia tão simples – e que semente horrível essa imagem e essas palavras me deixaram:

uma casa vermelha, dizia eu, de madeira, vermelha, num vale verde e céus cinzento escuros. uma pequena casa, num vale grande. côncavo, talvez.

era a mesma que tinhas visto, juravas. era a mesma que querias, desde outros tempos em que não te conhecia.

 





13 03 2018

a minha resistência em acolher-te os gestos de felicidade ou de euforia  é directamente proporcional à vontade que tenho, agora, de te ver feliz novamente e ao cepticismo que grassa em mim de ver isso acontecer.

Forças antagónicas que crescem lado a lado, em proporção, explosiva e ruidosamente em mim, enquanto passo horas sem dizer palavra.





6 03 2018

Devia ter percebido quando não quiseste mergulhar, na piscina, comigo.

Já me viras a pele, claro. Mais: sabias como era salpicada por água. Da chuva, por exemplo, nos idos de Março.

Não seria isso que faria com que te abandonasses à pulsão de mergulhar na água fresca num dia de calor (não és tu um homem de pulsões?).

Mas eu estava certa, de forma absoluta (outra palavra que te é cara), que quererias ignorar os poucos visitantes daquela piscina que encimava a serra, de onde se via o fogo avançar na linha do horizonte, onde as cinzas caíam indistintas, e lançares-te, comigo, só comigo, naquela água, que até já te tinha recebido dias antes, sem mim.

Não sou fogo, não sou água, nem tão pouco um corpo que valha a pena abraçar debaixo de água. Ou beijar, refrescadamente, com palavras mansas ao ouvido a contrastarem com os guinchos ocasionais das crianças que brincam à beira da piscina.

Devia ter percebido, logo ali, que quem tinha ido ao fundo era eu e que quem esbracejava para se manter à tona era, também, eu.





3 03 2018

Boa viagem meu amor
Bom ano meu amor
Amor meu, amortece me
Amorta me
A morte





1 03 2018

29 dentes.

Queria ter os 32 habituais, talvez 30 (a igualar a idade que me parece ser a mais triste de que tenho memória) e afinal tenho 29.

Mas não me fizeste perder os caninos.

Isso, não. Podes ter a certeza.

Poderei, assim, sorrir novamente sem vergonha nem peso. A despeito das rugas no canto da boca. Que é só minha e assim permanecerá.