19 06 2017

O pai dele morrera. Era esquisita a distância que, agora, a morte apressadamente obrigava a encurtar. Lutava-se contra o tempo, encaixando tudo o que não se dissera e o que nunca haveria de recuperar naquela burocracia de tarefas que não fazem parte do dia a dia de ninguém: escolher caixões, flores, sítios, cartões de anúncio de falecimento.

Parecia-lhe vê-lo a andar em círculos, mas com aparente normalidade e sentia uma urgência de fechar o chão sobre aquela pessoa falecida, a ver se se conseguia dar algum passo assim.

O que mais a afligia, quase em pânico, era que não parecia haver dinheiro para fechar aquele capítulo. nem conseguia imaginar o que aconteceria se, logo no dia a seguir (tão pouco tempo para uma pessoa se aperceber do que aconteceu!), não fosse possível juntar o dinheiro e pagar para o enterrar.

Assim, enquanto ele andava aparentemente a continuar a cuidar de trabalho, porque assim tinha que ser, olhava-o e cada vez mais lhe parecia o pai acabado de morrer. Se onde surgira aquele bigode? Tudo o resto, a compleição física mais emagrecida e a forma de colocar a t shirt nas calças, já se vinha assemelhando há uns tempos. Só a altura denunciava que era o filho vivo.

O desespero que a levava a pedir aos amigos, como quem vende rifas, ajuda para o funeral não se coadunava com o semblante de recolhimento ou o ritmo lento e magoado que impera nestes momentos.

Ele lá continuava a falar com quem trabalhava com ele, em sua volta, como numa reunião habitual.

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16 06 2017

não julgues que sou sensível: é uma coisa delicodoce, de vez em quando, lembrar-me que deixei de ver o rapaz com cabelo encaracolado emaranhado e semblante muito calmo e absorto, nas redondezas da minha casa,e  sentir um vazio na garganta.

esse rapaz agasalhava-se sempre de mais para o calor que fazia, talvez porque fosse mais fácil trazer a roupa assim.

tinha uma mochila puída, movia-se lentamente, sentava-se nos degraus do multibanco de cotovelos nos joelhos a pensar na vida.

fazia horas para o coração da cidade. por vezes, eu achava que podia estar bêbado, mas não. ainda dormiu umas vezes por ali, mas fundamentalmente esperava nos degraus das casas. eu inventava-lhe fugas da família, desejos de solidão, vozes na cabeça. mas nunca pediu dinheiro, nunca lhe falei. havia ali uma autosuficiência (bastava-se sem contacto), mas uma tristeza dentro de um vidro, que nunca poderíamos alcançar, muito menos eu que tenho tudo (até uma cartilha para viver a que não dou uso, que ridículo).





9 06 2017

As minhas pálpebras dançam. Ora se debruçam sobre si próprias, como eu quando me enrolo sobre mim, de pé, e deixo cair os braços pesada e livremente, ora se arregalam e arrepanham, a acompanhar uma excitação e energia que, na realidade, não me habita. É quase um carro a rolar pela ribanceira, quando me sinto assim enérgica de exausta.

E este cansaço traz-me duas coisas: indignação em muitos momentos do dia, face às mais variadas frases, perspectivas, posturas, e uma emoção tremida e fácil, uma compaixão delicodoce estúpida, uma constatação meio chocada da desgraceira dos outros quando, às tantas, nem eles a mencionaram.

 





4 05 2017

era ela de novo, estou certa. parecia ter crescido o cabelo, entretanto, mas o perfil conservava-se como o recordava, algo magro como o meu  e de movimentos pausados, não  como eu.

falava com os outros na sala e eu, contrariamente ao costume, calava-me à espera da aula ou do que quer que estivéssemos ali a preparar. havia uma angústia qualquer que me apertava o pescoço  e me deixava sem vontade de me ouvir, mais do que de falar.

e não me esqueço da imagem que trouxe na cabeça: o movimento a imitar era o de um toureiro. teríamos que, apenas com o nosso corpo, imitar um toureiro provocando um touro.

e consegui, achava eu, que com mais mestria que todos os outros, quando depois me apercebi da figura ridícula que fazia.





14 03 2017

i – cinco ou seis garotos correm atrás de um porco espinho que alguém pintou de amarelo. está desesperado, em fuga, e eles meio vergados a correr atrás dele. salvam-me a aflição com uma mangueirada, como as que se dá aos gatos engalfinhados. seguida do alívio, entristeço-me pelo vestido manchado e irrecuperável: andei meses a pensar que só tinha um corpo quando enfiada nele;

ii – reencontro-te, pai, quando páras o carro ao meu lado e tentas falar comigo. já não ouço o que tens para dizer e tenho pena, muita pena, porque queria mas não consigo. juntam-se pessoas, junta-se confusão e, de repente, o interior do carro começa a arder sem que ligues aos meus avisos desesperados e olhes para trás, para confirmar. é isso: olhar mesmo para trás. no entanto, consegues apagar o fogo, depois de ter tentado sem sucesso mandar uns panos lá para cima como nos filmes.

 

apaga-lo com a boca e as mãos. artista de circo.





2 03 2017

são sempre umas malas feitas que não chegam a levantar do chão, como naquela viagem que planearam mas cancelada no dia. como se sempre tivesse estado à espreita que não irias seguir caminho.

são recitais que te prometem e declarações de choro e os dias passam.

“there’s nothing there” (Manchester by the Sea)





20 02 2017

o meu avô paterno tinha uma escrivaninha, organizada, própria de comercial grossista. tinha blocos de notas aos quadrados, com caravelas na capa, que eu rabiscava sem noção.

também tinha um móvel na sala, da televisão, e com uma porta que se abria e de onde saía a aguardente. o cheiro da madeira do móvel era maravilhoso: odeio aguardente, mas cheira sempre àquela madeira. dizem-me que cheira sempre, mas eu ainda acho que é da madeira do móvel.

ele, além de beber o vinho da garrafa verde escura com aquelas tampas que têm uma mola de metal, bebia daquela aguardente amiúde. ao que sei, apesar de ele até ser simpático comigo e gostar de conversar comigo, era inteligente, acutilante, mau, bêbado e atrevido.

pelos vistos, era mesmo de andar por fora, de se atirar às mulheres todas, de não amar os filhos. mas nunca vi: só me mostrava os coelhos e as galinhas, lá fora, mas sei perfeitamente que não tinha grande carinho por mim.

era assim cheio de vícios, mas uma vez disse-me: vou ensinar -te a comer uma banana com classe. e mostrou -me como se descascava, colocava num prato, se cortava ao meio com faca e garfo, e fatiava, minuciosamente, a banana.

cheio de volúpias, maldades e manias, mas a banana comia-se de faca e garfo.