28 06 2017

-Gostas da casa?

Gostava, sim. Era curioso como tanto gostava de casas antigas recuperadas, e que achava mais diferenciáveis umas das outras – o que lhe agradava – como também de casas assim modernas, brancas, sem protuberâncias de armários nas paredes. Os corredores eram longos, havia luz que não feria. Quase não podia acreditar que ia morar ali.

-Gosto muito – balbuciou quase inaudivelmente.

Não conseguia libertar voz porque se sentia, ainda, perplexa e desconfiada. Ao que lhe parecia, até ao dia anterior, tinha vivido sempre com algum aperto, tudo bastante controlado no descontrolo, tudo muito previsível num futuro próximo quanto a possibilidades, novos voos, novos sítios. Até porque era um ponto de honra manter a casa anterior, a de sempre, a que não era delas mas que tinha a vida delas toda lá dentro. Como raio é que tinha ido arrendar aquela casa?

-Mas e a outra casa?

Tanto queria voar, mas tinha muito medo de ter que se despedir da casa. Tinha-se realmente moldado às suas recordações. Não é que, quando se sentava no sofá, se lembrasse todos os dias da infância feliz e a visse ali. Mas ela estava ali, impregnava-se nela sem que a precisasse de evocar. Em tempos sentira a casa hostil e tinha detestado. Agora, não ansiando propriamente regressar a ela ao fim do dia , sentia que a acolhia sem perguntas. Não a queria deixar.

  • Ficamos na mesma com ela, esta é provisória e podes vir vindo para aqui.

Isto soltou os alertas todos. Duas casas, duas rendas? Impossível, recusava sequer a aceitar esta facilidade súbita como real ou sustentável. E se havia coisa que lhe punha o sangue a fervilhar, eram estes rasgos à grande Gatsby.

  • Mas como é que é possível? Onde arranjaste o dinheiro? A sério, quem está a pagar isto?

Pela primeira vez hesitou na resposta, desviou-se e traiu-se absolutamente num motivo velado por trás daquilo.

Mais tarde tudo se tinha deslindado: tentações e facilidades oferecidas por governos obscuros que sempre tinha criticado e ela era apenas uma ponte no meio de intrigas palacianas. Uma mulher que tinha sido sempre íntegra, afastada do poder, deixara-se levar por aquilo: talvez pelo medo, que sempre lhe tinha mordido os calcanhares, de ficar sem nada.

As intrigas descobrem-se, anuncia-se um julgamento.

Ficara revoltada com o desmoronar da heroína aos seus olhos. Não estava desiludida, nem vazia, como um pedaço de cortiça seco, mas antes revoltada, cega, sem ar. Queria estar ali no momento em que seguissem para o julgamento e assim foi.

Vê os condenados passar pelo corredor , entre eles a mãe, e grita-lhe muito apontando-lhe o dedo, em riste, até se conseguir aproximar dela. Sente a garganta prender-se, julga-a, faz recair a culpa de tudo o que vai acontecer daí para a frente sobre ela, sobre o seu discernimento, decisões tão petulantes e inflexíveis que agora era evidente que, finalmente, a haviam tramado.

Queria apenas reforçar-lhe, até ela admitir qualquer coisa, que mais valia ter torcido, que mais valia não achar que tinha sempre certezas, que tinha de uma vez por todas decidir se tinha princípios ou se não os tinha. E gritava-lhe isto muito perto.

Num segundo, ajeita-lhe o colarinho da túnica de cor branco sujo, de linho, que  envergava. Porque percebe num segundo que aquela roupa e o cabelo cortado curto e desalinhado significavam que caminhava para o cadafalso. E então chora, chora desalmadamente agarrada àquele colarinho, com os músculos da cara e do pescoço a contorcerem-se, nunca tão facilmente quis largar o que dissera antes, deixar de acreditar em cada palavra, que se lixe a tua coerência ou  a tua faltade flexibilidade ou o teu sempiterno tenho razão. Tão facilmente se vergaria de novo, deixaria de querer lutar pelo ponto de vista, abdicaria de deixar inscritas aquelas palavras tão vãs de acção quanto dolorosas e com efeitos nefastos.

Só para que ela não caminhasse para o cadafalso.





19 06 2017

O pai dele morrera. Era esquisita a distância que, agora, a morte apressadamente obrigava a encurtar. Lutava-se contra o tempo, encaixando tudo o que não se dissera e o que nunca haveria de recuperar naquela burocracia de tarefas que não fazem parte do dia a dia de ninguém: escolher caixões, flores, sítios, cartões de anúncio de falecimento.

Parecia-lhe vê-lo a andar em círculos, mas com aparente normalidade e sentia uma urgência de fechar o chão sobre aquela pessoa falecida, a ver se se conseguia dar algum passo assim.

O que mais a afligia, quase em pânico, era que não parecia haver dinheiro para fechar aquele capítulo. nem conseguia imaginar o que aconteceria se, logo no dia a seguir (tão pouco tempo para uma pessoa se aperceber do que aconteceu!), não fosse possível juntar o dinheiro e pagar para o enterrar.

Assim, enquanto ele andava aparentemente a continuar a cuidar de trabalho, porque assim tinha que ser, olhava-o e cada vez mais lhe parecia o pai acabado de morrer. Se onde surgira aquele bigode? Tudo o resto, a compleição física mais emagrecida e a forma de colocar a t shirt nas calças, já se vinha assemelhando há uns tempos. Só a altura denunciava que era o filho vivo.

O desespero que a levava a pedir aos amigos, como quem vende rifas, ajuda para o funeral não se coadunava com o semblante de recolhimento ou o ritmo lento e magoado que impera nestes momentos.

Ele lá continuava a falar com quem trabalhava com ele, em sua volta, como numa reunião habitual.





16 06 2017

não julgues que sou sensível: é uma coisa delicodoce, de vez em quando, lembrar-me que deixei de ver o rapaz com cabelo encaracolado emaranhado e semblante muito calmo e absorto, nas redondezas da minha casa,e  sentir um vazio na garganta.

esse rapaz agasalhava-se sempre de mais para o calor que fazia, talvez porque fosse mais fácil trazer a roupa assim.

tinha uma mochila puída, movia-se lentamente, sentava-se nos degraus do multibanco de cotovelos nos joelhos a pensar na vida.

fazia horas para o coração da cidade. por vezes, eu achava que podia estar bêbado, mas não. ainda dormiu umas vezes por ali, mas fundamentalmente esperava nos degraus das casas. eu inventava-lhe fugas da família, desejos de solidão, vozes na cabeça. mas nunca pediu dinheiro, nunca lhe falei. havia ali uma autosuficiência (bastava-se sem contacto), mas uma tristeza dentro de um vidro, que nunca poderíamos alcançar, muito menos eu que tenho tudo (até uma cartilha para viver a que não dou uso, que ridículo).





9 06 2017

As minhas pálpebras dançam. Ora se debruçam sobre si próprias, como eu quando me enrolo sobre mim, de pé, e deixo cair os braços pesada e livremente, ora se arregalam e arrepanham, a acompanhar uma excitação e energia que, na realidade, não me habita. É quase um carro a rolar pela ribanceira, quando me sinto assim enérgica de exausta.

E este cansaço traz-me duas coisas: indignação em muitos momentos do dia, face às mais variadas frases, perspectivas, posturas, e uma emoção tremida e fácil, uma compaixão delicodoce estúpida, uma constatação meio chocada da desgraceira dos outros quando, às tantas, nem eles a mencionaram.

 





4 05 2017

era ela de novo, estou certa. parecia ter crescido o cabelo, entretanto, mas o perfil conservava-se como o recordava, algo magro como o meu  e de movimentos pausados, não  como eu.

falava com os outros na sala e eu, contrariamente ao costume, calava-me à espera da aula ou do que quer que estivéssemos ali a preparar. havia uma angústia qualquer que me apertava o pescoço  e me deixava sem vontade de me ouvir, mais do que de falar.

e não me esqueço da imagem que trouxe na cabeça: o movimento a imitar era o de um toureiro. teríamos que, apenas com o nosso corpo, imitar um toureiro provocando um touro.

e consegui, achava eu, que com mais mestria que todos os outros, quando depois me apercebi da figura ridícula que fazia.





14 03 2017

i – cinco ou seis garotos correm atrás de um porco espinho que alguém pintou de amarelo. está desesperado, em fuga, e eles meio vergados a correr atrás dele. salvam-me a aflição com uma mangueirada, como as que se dá aos gatos engalfinhados. seguida do alívio, entristeço-me pelo vestido manchado e irrecuperável: andei meses a pensar que só tinha um corpo quando enfiada nele;

ii – reencontro-te, pai, quando páras o carro ao meu lado e tentas falar comigo. já não ouço o que tens para dizer e tenho pena, muita pena, porque queria mas não consigo. juntam-se pessoas, junta-se confusão e, de repente, o interior do carro começa a arder sem que ligues aos meus avisos desesperados e olhes para trás, para confirmar. é isso: olhar mesmo para trás. no entanto, consegues apagar o fogo, depois de ter tentado sem sucesso mandar uns panos lá para cima como nos filmes.

 

apaga-lo com a boca e as mãos. artista de circo.





2 03 2017

são sempre umas malas feitas que não chegam a levantar do chão, como naquela viagem que planearam mas cancelada no dia. como se sempre tivesse estado à espreita que não irias seguir caminho.

são recitais que te prometem e declarações de choro e os dias passam.

“there’s nothing there” (Manchester by the Sea)