13 08 2018

Gosto de Arcade Fire. Mais daqueles álbuns lá para trás, como é useiro e costumeiro dizer-se: sem pretensões, ando sempre atrasada. Gosto muito, são a banda sonora de uma viagem que fiz a Ponte de Lima, aos espigueiros, e por aí fora. A ver, da janela, a estrada cinzenta passar, a tomar decisões no coração, na cabeça, cheia de velhadas à volta.

Mas é banda que, em dois momentos, me demonstrou agudamente a distância entre mim e uma pessoa.

Momento um: Ombro com ombro, nunca um tornear de tronco me pareceu tão lento no vazio. O tempo arrasta-se nesses segundos, em que o peito do outro não se vira para chocar com o teu, numa entrega que seria um sorver, tão ansiado.

De tudo isso resta as mãos a cobrirem a cara, um olhar meu fixo e desconcertado, e um silêncio que não mais desapareceria, no meio de gaitas de foles, harmónicas, violinos, teclados, em apoteose.

Momento dois: sem corpos ao lado, à saída de um banco a tratar de vida, finalmente, releio uma mensagem. No meio de tanta tristeza, caos e afins, que justificava tão adequadamente o deixar de amar sem o dizer, ali estava a capacidade de ser feliz, de a vida lhe mostrar que ainda valia a pena, como havia dito. Que ainda havia coisas bonitas e esperança, ou lá o que era.

Gostam muito de me ouvir cantar, mas facilmente me calam com uma sinfonia.

 

 

Anúncios




11 08 2018

Entrara, com uma espécie de urgência que não reconhecia, numa loja de artigos religiosos. Quase como não se lembrasse do que a levara ali, racionalizava: se estiver acompanhada, só posso ter entrado para escarnecer. Olha em volta e não reconhece companhia.

Recorda-se: duas prendas urgentes, falhas que tenta aplacar.

Dirige-se ao guichet à direita, onde já se enfileiram alguns clientes.

– Bom dia como está? – sorridente e melíflua, uma senhora pequena e redonda, de cabelo arruivado e em forma de cogumelo.

– Bom dia – aproxima-se muito do vidro, nunca ouve através daqueles vidros, nem que coloque o ouvido nas aberturas, o som nunca sairá por ali directamente para si.

– Para que era?

-Eu venho comprar uma, quer dizer, duas prendas – recorda-se à medida que vai dizendo, não quer falhar nada, já sentindo que falhou antes e que, precisamente por isso, encontrava-se ali.

-Uma para a minha mãe e outra para a minha madrinha. O que me sugere?

– Mas de que tipo estamos a falar? Tem alguma ideia? – titubeia, procura apoio para não ter que pensar.

-Não sei.

Olha rapidamente em volta, são tantos artigos que nem imaginava que existiam no sector da religião.

–  Mas, no máximo, para 25 euros – diz isto com uma aflição envergonhada. Não pode gastar mais : ou não quer?

Do lado de lá, a pequena senhora sacode-se com um ar que parece apenas sublinhar a incredulidade de tal pedido, como se se tratasse de um insulto por não poder caber na realidade mais evidente:

-Ai isso é impossível, no mínimo temos coisas para 30 euros – arrastando o fim com um riso vindo do nariz, em resfoleganço, um ar que passa na garganta em solavancos com desprezo pela hipótese.

Sente os braços a arder. Curiosamente, os braços. Já estão retesados, sem se dar conta, o torcicolo também lhe deixará lembrança para três dias, benza Deus, virá de seguida. Antes que a boca lhe seque, auxilia-se dos olhos arregalados:

-Ainda bem que rezar é de graça. Já vou abençoada! – isto já quase gritado, deixando uma pequena ponta de humilhação, que quase escapava.





20 07 2018

és muito transparente,

dizem-me amiúde.

Aplicava-se à expressão facial, que trai os pensamentos todos, à exacta velocidade com que perpassam nos olhos, ao tom de pele e, agora, ao seu atravessamento pela vida mundana e diária dele.

Quase sete horas a tentar rodear-se dos seus pensamentos, opiniões e estados de alma, não sabendo bem se foi  só para matar a traça, apaziguar a ressaca da ausência prolongada de tempo partilhado, ou se é só para confirmar aquilo que já lhe corrói o centro do peito e a garganta.

Como diz o outro

“a esperança  é uma coisa terrível”.

 

 

 

 





8 07 2018

Se agora fosse ano novo, e os fogos de artifício rebentassem no meio do frio da primeira noite do ano (será que ainda vai haver frio na primeira noite do ano, nos próximos anos? o tempo a mudar e tal), eu tinha finalmente um desejo a pedir.

Parece que só quis tanto algo, quando em preces pedi para que certo processo desse certo, que não tenha metido água e que passe àquele exame. Estas eram as coisas que me faziam pedir mais fervorosamente aos céus, tipo desejos e promessas.

Agora, se pudesse, pedia outro tipo de desejo, com os dentes bem rangidos e apertados: que nunca me tivesses visto o corpo além das pernas de collants azuis no inverno e os braços magros no verão, até pouco acima do cotovelo. Talvez que me pudesses ver os ombros ossudos. Mas só isso.

Que nunca me tivesses visto as costas. Principalmente as costas. Queria roubar-te as costas e deixar-te essas doridas de que te queixas tanto, encurvadas, massacradas de sofás hipócritas. Que só te pudesses haver com essas e que nunca me tivesses tocado além de um leve apertar do antebraço ao cumprimentar num encontro qualquer social.

Queria roubar-te o corpo que te dei, exactamente no momento em que achavas que o ias ter. Se calhar, devia ser mais tarde um pouco. Dar-to, sim, mas roubar-to exactamente quando começavas a sonhar com ele, já palpável na tua memória.

Era isso que pedia aos fogos de artifício: e dizer-te, maldosamente, que já os meus olhos brilharam com outros fogos na primeira noite do ano.





6 07 2018

A primeira vez que vejo uma coisa da sua autoria sem que esteja por perto ou receba as minhas palavras.

Reconheço-lhe nas vozes dos outros os tiques de linguagem, aquelas muletas que sempre permearam as nossas conversas – e os risos, chego mesmo a recriar uma gargalhada quase sufocada como a que costuma dar, raramente. Quer-se dizer, raramente por referência àquele amontoado pequeno de tempo, dois anos ?, são uns quantos dias, mas não sei fazer percentagens, muito menos do ratio de gargalhadas e choradeiras e urros. Sei que não eram frequentes, mas talvez já não me lembre, talvez agora sejam frequentes num tempo que não é o meu, mas que, curiosamente, caramba, também o estou a viver pisando quase as mesmas ruas. Que bizarro.

Prosseguindo, escavo por referências a mim, claro, referências, pelo menos à sombra que possa ter lançado, à luz?, à cicatriz, qualquer coisa que não seja um esquecimento, mas que – por amor de deus – também não seja aquela memória delicodoce adolescente, sem rancores e com flores, que isso é uma facada entre as costelas, qual dor de baço.

Vejo ainda um dos actores a fazer quase um boneco da sua forma de colocar os braços e de agarrar o cigarro, de se encurvar, de comunicar grunhamente com um grupo. Alivio-me por um pouco, porque posso apenas lembrar a personagem sem grandes apertos e sem continuar naquela procura de reflexos meus no encenar da vida, tendência bastante infantil (admoesto-me).

Fixei a tirada da rua, da pedra, do pontapé na pedra que o individuo dá e que atinge o joelho do amor da tua vida, e que desagradável que isso é, e da farmácia em seguida, a que foi buscar mercurio. Que linda alegoria, sim senhora, não tem nada a ver comigo, mas até posso ensaiar uma lágrima no canto do olho porque, no momento em que ouço aquilo, o meu instinto diz-me que é para mim (ai a vontade…).

São palavras que poderia nunca ter ouvido e que, mais uma vez, apenas ouvi porque a) arrastei os costados a um local, quase solitária e b) fiz um esforço interpretativo e efabulador, sem que mas oferecessem de viva voz e vivo coração, enfim, de corpo inteiro e consagrado.

Mais adiante, um “amo-te” “eu sei”, dito por uma e outra personagem, mão no ombro e um voltear de tronco para encarar quem profere a declaração, e ia jurar que é uma referência ao Han Solo e à Leia, mas ele nem liga muito a isso, saberá ainda que ligo? Não se lembra, foi coincidência, olha aquele mito, o da coincidência criativa, que leio nos papéis áridos das últimas semanas, ao fim-de-semana, para aquele trabalho.

Terei que aprender que a admiração não me torna alguém melhor, mais valioso ou precioso, e que isso, de todo o modo, é a vaidade a falar, cabe-me a mim raspar esse fungo, líquen, sei lá, que é a vaidade que me acompanha e que tem vindo a crescer. Não sei bem por que razão o devo fazer, talvez por ser em si um acto intrinsecamente mais justo e elevado?, mas, oh meu deus, como pensar nisto sem cair de novo na vaidade, salvem-me, que blasfémia, que terror, assim não andamos.

 

 

 

 

 

 

 

 





28 06 2018

Estava sentada num degrau de entrada de uma casa que me parece meio abandonada, meio ilicitamente ocupada, ali na constituição. É uma rua demasiado ampla para uma cena daquelas acontecer, lenta, pequena, íntima de exposição,  mas o certo é que é ali que a vejo.

Sentada, sem um ar demasiado andrajoso (só se nota olhando com mais demora), cabeceia e, com o braço esquerdo, de costas para a porta, parece bater-lhe. Irritada, injustiçada, desesperada, a desistir.

Tento adivinhar se questiona o famigerado, clássico e aborrecido porquê?, se pede para a deixar em paz, se arreda alguém que lhe meta agora asco, se quer que alguém se aproxime mas o afasta assim primeiro, como as crianças quando têm birra de sono e cambaleiam assim – sentadas.

Ainda profere algo indistinto, olhar vago por cima dos carros (não muito acima, não tem forças para levantar a cabeça), e ergue um dedo inquisidor e sabedor, de quem está a anunciar uma grande verdade e vaticina um destino.

Por fim sossega, com um encolher de ombros que a afasta do resto do mundo e que me lembra que nunca esteve no mesmo plano que eu – nem nunca estará. Linhas paralelas que não se encontram.





6 06 2018

Olhei-me, para baixo, encurvando o pescoço para a frente. Vi uma tatuagem imprecisa no meio do meu peito, em cima do externo, cuja forma detesto. Parecia algo meio grotesco, eu meia arapazada naquela parte, parecia só um miúdo imberbe que decidiu colar tatuagens dos bolicaos. Mas era verdadeira e o medo do irreversível atropelava as soluções rápidas que já engendrava para não ter que ver aquilo.

Mas o pequeno alívio da existência de soluções terminou logo a seguir quando me apercebi de outras tantas tatuagens nos braços. Sítio que muitas vezes trago ao léu, com t-shirts e camisas arregaçadas.  Figuras indistintas, vulgares, que recusava ter permanentemente ali. Uma escolha que não havia feito e isso tirava-me o ar.

Ao acordar e a dirigir-me para o banho, não pude deixar de torcer a boca num riso estúpido ao pensar na promessa vã, e que nunca será cumprida, de alguém tatuar um número no corpo. Um dia do calendário que só acontece de quatro em quatro anos e que, para aquele corpo, se desvanecerá na velocidade proporcionalmente inversa ao tempo que demora até chegar a novo dia do calendário.