15 01 2018

a pessoa de há onze anos atrás, perdeu vozes de apoio quando era tão óbvio que bastava ser tratada como alguém que, obviamente, estava a sofrer pelo simples facto de ter que lidar com mais do que uma obrigação ao mesmo tempo.

a obrigação dos exames e de não falhar. a obrigação de se encher de uma espécie de pânico que acreditava que tudo se ia resolver, porque ao menos era uma vida nova, aquela sem o pai em casa.

há onze anos, perderam-se amigos. porque não falava alto de mais, porque não dizia claramente que estava a sofrer de amor. porque, à raiva pelas coisas que não iam mais ser iguais (iam ser, até, bastante diferentes),  não houve paciência dessas pessoas para dizer que, não, também não sabiam onde aquilo ia dar, mas que na convulsão dos dias eu ia continuar a valer alguma coisa.

há onze anos atrás, mantiveram-se amigos até hoje. ou, pelo menos, até onde o limite das forças dos dias nos permitem mantê-los: mas julgo que sim, que aqui estão, em planos, mensagens e um cuidado redobrado no meu aniversário.

tenho sempre a tentação de me lembrar como era há onze anos atrás. demorei tanto tempo a ficar cínica.

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2 01 2018

desejo para 2018

que todos sejamos consequentes.





27 12 2017

Natal. Uma máquina da louça aberta, por arrumar, uma mesa, um armário colocado tão alto e imediatamente por cima da mesa, a qual não permite que uma cadeira colocada de forma normal lhe permita subir em segurança ou na vertical para guardar mais uma porra de uma máquina qualquer.

Atira com os plásticos, atira com as coisas, com esperança de que ripostem contra si ou qualquer coisa do género.

Natal. Com palavras que, pela primeira vez, lhe criam a dúvida se estão a ser ditas realmente com vontade – as coisas resolviam-se à nascença, diz-lhe.

Naquele momento teve a certeza absoluta que ela não queria dizer aquilo. Só podia. Nunca quis, tudo o que faz e diz e anda e corre contrariam essa frase. Impossível. A dúvida instalou-se nos dias seguintes. Não mais conseguiu sorrir no Natal.

Principalmente por uma outra frase seguinte (há sempre uma frase a seguir que é a segunda chapada após o estouro): tem a certeza que, noutras circunstâncias, iguais às de X, com o mesmo dinheiro, faria o mesmo que ele e não a veria, não iria ao encontro dela, não a procuraria fazer feliz.

E o que fez perante isso? Miserabilizou-se, atirou-lhe os braços, sufocou sem ar entre cada palavra e desfez o rol de decepções e tristezas que se vêm acumulando nas últimas semanas. Deu-lhe o flanco aberto, como um refém completamente domado, demonstrando não saber o que é, verdadeiramente, a resistência ou uma revolução. Seria a primeira a soçobrar, que tristeza, que vergonha.

Natal. A impressão cristalina, exacta e perene que se resume a: vão e fraqueza.

 

 

 





11 12 2017

Para a minha mãe, pelos meus 30 anos.

Mãe,

Queria que não tivesses que trabalhar aos 66 anos. Tento fazer um exercício de memória e arranjar, aqui e ali, coisas e sítios onde não se devia ter gasto dinheiro. Que cobarde completa. A questão está resolvida quando alguém tem que trabalhar a levantar velhos de cem quilos e tem tão pouco mais a perder.

Obviamente que fazes isto para poderes ter ainda mais coisas que me ofertar, com que me surpreender, mais sítios no mundo para ver comigo e só comigo. Porque a honra já sabemos onde a meter, ainda que me enganes e tentes explicar que é mesmo por isso, pela honra de pagar contas.

Pelos meus 30 anos, queria que não tivesses caído ontem na rampa, mais uma vez, e que o joelho não te tivesse traído e inchado tanto. Largar tudo que tenho na mão e ser a estúpida que não te deu o braço, mesmo adivinhando que ias cair, porque andas sempre solta e mais do que podes. Queria não me lembrar que, mesmo quando te dei o braço, não pudeste deixar de cair.

Com 30 anos em cima, queria mesmo ir ao encontro dos patrões que vais tendo e dar-lhes um valente bufardo no focinho. Bater-lhes até me doer a mão, porque não se fazem propostas e enganos como esses à minha mãe. Não se oferecem dois euros à hora à minha mãe com 66 anos, não se falham pagamentos e prometem mundos e fundos e  se continua a respirar e a beber a porca da meia de leite e a pisar as ruas onde também piso e onde pisas também, mãe.

Viver, porque me deste vida, é estar assim no limite: sempre a querer aniquilar algo ou alguém. Como se todas as ofensas, agruras e pessoas asquerosas te estivessem a roubar o ar ou o espaço e eu tenha que os afastar a todos. É doloroso e ainda não vi nada desta vida.

Todos os que me ouvem acham que sou intratável contigo. Nenhum desses está lá para rigorosamente nada, nunca. Mas, em bom rigor, nenhum deles tem alguém absolutamente abnegado como tu. Por isso, devem ter razão.

Deste-me amigos teus, que gostam de mim pelo que sou- prolongamento de ti-, e que orgulho e sorte isso me dá.

Parabéns, mãe, pelos 30 anos, em cima dos 66, em cima dos 45 do teu outro filho. Um corpo que aguenta tanto, um espírito que me leva tudo.

Já não sei escrever, mas sei amar-te desalmadamente.

Beijos da tua filha,

 

 





27 11 2017

Às 15h00 olhei pela janela: como sempre, vejo pombas. Desta vez, reparo que há uma dentro de um orifício redondo, parecido com uma pequena escotilha de navio em pedra, outra pousada no ferro das cordas da roupa da janela ao lado e uma terceira no  parapeito da janela da sala.

Num segundo, aquela que estava pousada no ferro faz um movimento para tentar partilhar aquele espaço com a outra, que bica no chão do orifício e que, enraivecida, afasta e expulsa a intrusa, não sem deixar de bicar o que lá se encontre mal é bem sucedida.

Nem muito tempo passa e já aquela que estava no parapeito aqui da sala lança-se num voo rápido até lá tentando o mesmo e envolve-se em luta com a resistente, bico com bico, pendurada só por ele, até que desiste e recua até à base.

Segunda investida da outra que se segura no ferro, agora acompanhada pela do parapeito, três obstinadas pombas que, decerto, já nem se lembram porque querem o orifício – sendo que a primeira já deve ter sorvido todas as migalhas existentes.

São 16h18 e olho novamente. Apenas duas pombas sobram e, finalmente, conseguiram arranjar espaço para as duas lá. Uma mais à frente que a outra, é certo, uma com a cabeça de fora, ao frio, e em paz.

Eu sou a terceira pomba, claramente. E detesto pombas.





17 10 2017

Mete uma mão ao bolso do impermeável comprido que ainda cheira a ela e depara-se com um papel. tem sempre uma quantidade inútil de papéis que guarda nos bolsos à espera que apareça um caixote do lixo e depois fica com medo de se separar deles, podem ser precisos para coisa nenhuma.

vê o que é, desdobrando-o. uma lista de supermercado. com a letra desenhada e redonda, imperial, dela. um Leite escrito com um L de livros de contabilidade antigos, um M de manteiga semelhante a uma gravura antiga.

uma elegância restante em sítios de luzes brancas – que odeia, e de que ela gostava tanto – como supermercados desordenados.

uma saudade de todas as coisas mundanas que um dia não viria a ter. aquela lista seria sempre a promessa de a ver mais tarde, seria sempre a memória de mais uma comida reconfortante que dava por garantida.

 





27 09 2017

Sou uma incapaz. Atravesso a avenida cinzenta, de vez em quando, para ir esperar o autocarro (quando não me dão manias de querer quebrar a rotina com um caminho pedonal diferente para casa, que ridícula, que pequenez, que fuga). Na fila, fito dois sem abrigo, andrajosos, com as caras sujas e já de uma certa idade. Não sei se vejo ou se só adivinho falta de dentes, mas uma irritação crescente instala-se em mim por vê-los sentados quase no mesmo banco de ripas de madeira, minúsculo, ridículo, que veio povoar aquela avenida há uns anos. Mas não é só isso: ela empoleira-se nele, abraça-o muito, dá-lhe beijos canibais, há ali uma amálgama e eu só tinha que desviar o olhar, se me irritava, mas deixo aquilo crescer como uma dor de estômago. Deve ser de pensar que eles se acham superiores, de algum modo, por não quererem saber do que os rodeia. Ou por quererem saber tanto, mas não partilhar com ninguém aqueles sucos e texturas e sei lá mais o quê (que diabo, mas quereria eu que eles partilhassem isso comigo?).

 

Continuo incapaz. Vou almoçar ao pequeno café de música agradável com o patrão/empregado surdo, que passa sempre por antipático. Há uns tempos largos que não via aqueles dois, mas encontravam-se tal e qual os havia conhecido há cerca de dois anos. Ela senta-se sempre ao lado dele, virados para a porta. Ela sorri-lhe sempre e gargalha, ele também sorri, ela pendura-se ao pescoço dele, beija-o, mordisca-o, inclinam a cabeça em beijos longos , o almoço todo, a sobremesa, o café. Um ar de devoção que me tira do sério.

Mas, quem me diz que ela não sabe o seu exacto valor? e que pode perfeitamente ofertar-se, nunca se perdendo? Como se tivesse que carregar alguma bandeira minha, pelos meus falhanços. Como se eu, sendo hirta, escondida, envergonhada de demonstrar um único afecto na rua, me desse menos, me perdesse menos, me despedaçasse menos. Obrigo-a a carregar uma verdade qualquer que consiste em afirmar que qualquer gesto daqueles, parecidos com os dos animais, são uma manifestação qualquer de desprendimento de nós e do nosso valor e da nossa identidade ou raio que parta.

Obviamente que digo com toda a segurança que aquilo é um arranjinho. Claro que tudo se confirma só por entrarem num carro, em frente àquele café, na Baixa, para irem para outro lugar, quando aquilo é um café onde iam comer após o trabalho. Ninguém se vai movimentar numa hora de almoço para longe do local de trabalho, só porque sim.

Dois anos e pouco. Tanto mudou comigo, nada mudou com aqueles, essa é que é essa, sua incapaz. A tua descrença nada mudou nem nada manteve.