15 05 2018

Quando o vi a falar com uma senhora na mesa atrás que não era a mãe dele (que estava noutra mesa, de telemóvel em punho há um bom bocado, tendo interrompido a conversa para lhe gritar o nome e exigir que se aproximasse sem, no entanto, lhe falar mais), torci-me na cadeira com receio que viesse à nossa mesa.

E veio.

Não convidei logo à conversa. Mantive-me julgadora e hirta, sendo que ela, obviamente, descoseu-se logo em respostas naturais como usual.

Dizia o rapaz que tinha ido ao multibanco e que, por isso, agora tinha dinheiro, exibindo vinte cêntimos. Daí até me soltar a língua não demorou muito. O mote foi dado por ela quando o alertou para esconder a moeda, não fosse alguém roubá-lo ou ser mal intencionado.

Sei que à medida que ia falando ia tendo necessidade de temperar o pessimismo que incutia no rapaz que, apesar disso, não se esmoreceu nem me dedicou menos atenção, como outros seres de que me recordo agora rapidamente.

Falei-lhe de enganos, brincadeiras, ilusões e risco. Descobriu rapidamente o que era um engano no jogo que ela lhe fez com uma moeda escondida, e pude ver, pela primeira vez, a mudança da expressão facial de alguém puro que se sente enganado. Que sentia que não tinha, agora, hipótese de acertar tendo assumido com veemência na sua cabeça que lhe estava garantido poder acertar, pelo menos uma vez na vida.

Após se saber enganado, disse não querer brincar mais com ela – e logo se deslinda, para mim, uma bonita alegoria da vida adulta, das respostas que uns deviam dar aos outros, ora ao se sentirem enganados, ora ao saber que enganaram, maldades ou intenções à parte.

Disse-me um segredo ao ouvido quando surgiu uma alegada irmã dele no cenário da esplanada, trazida por mais gente. Não percebi o segredo, mas não o quis obrigar a repetir e a sentir-se constrangido. Enganei-o numa partilha, também eu.

Para me redimir, consegui compreendê-lo adiante quando, perguntado pelo nome dela, disse não se recordar. Percebi rapidamente que não tinha intenção de o dizer, que o “não me lembro” não era não saber (apesar da minha mãe tanto repetir antes dos testes “muito esquece a quem não sabe”), era mesmo “não quero dizer, mas estou confortável assim, em paz contigo, por um pouco ou até te deixares de lembrar”.

Jorravam, assim, alegorias à vida adulta em fim-de-semana de aparições ainda para mais. Os “não sei” que pululam à minha volta, feitos de esquecimentos. Fornecer, aberta e voluntariamente, uma informação – é irmã – mas depois não querer mais aprofundar o assunto nem entregá-lo de vez ao outro, pedindo antes para esquecer com respostas vagas até querer segredar um segredo inaudível para que o terceiro não o apanhe, passando uma carga que nunca transitou de ombros.

Não deixei de lhe dizer, interpelando-o directamente: Não queres dizer, não é antes assim ?

Francamente, confessou (que alívio, que miragem,  a rapidez e desenvoltura e transparência da resposta): não, não quero dizer.

Então não é não saberes, nem te lembrares, não queres dizer e pode ser só assim.

Ouviu-me. Seguiu-me enquanto saía, fez uma ou outra pergunta indiscreta sem má intenção – o desconforto, no entanto, nunca desaparece, fruto de instintos pouco práticos afinal  – e distraiu-se rapidamente com a menina.

 

 

Anúncios




7 05 2018

em criança, quando brincava sozinha, falava alto sem contar, colocando-me as dúvidas que me atormentavam.

lembro-me especificamente de estar debruçada num sofá a pensar: e se agora pudesse fazer de conta que nunca tinha dito uma palavra antes e que agora ia começar, do zero, tudo o que tinha a dizer ao mundo? vamos começar do início, um zero original, um começo inteiro, desconhecido, sem uma mácula.

angustiava-me também pensar que isso seria extremamente difícil se mantivesse a memória de tudo quanto tinha dito ou pensado antes, mas a verdade é que, no minuto a seguir, mantinha essa memória, dizia palavras agrestes, dizia coisas inúteis que nada criavam no espírito de ninguém.

desta feita, cerro os dentes mal alguém faz de conta que eu não disse uma série de coisas frágeis, definidoras de limites e memórias minhas, e se lhe segue com as baboseiras mais corriqueiras e com som de mirra técnica que me lembro de ter ouvido até hoje.

Parece, abrenúncio!, ser um padrão constante ultimamente. Devem ser contas a haver pelas vezes em que pedi para começar de um vazio original sem palavras.

 





28 04 2018

Voltei a passar, uma única vez, por debaixo das árvores.  De passo rápido , porque não quis enfrentar o rio de carros a atravessar a passadeira. Nem senti o tempo que demorei, mas fui adormecida. Nada olhei com atenção , nem com aquela emoção cheia que tinha outrora.

Ontem detive me antes de passar por debaixo delas. Não quis e atravessei para o outro lado. Mas  senti o tempo e deixei me pensar: já tem folhas verdes a brotar. Um verde fresco, Ainda viçoso e viscoso, com cheiro. Da última vez que as vi frondosas tive esperança, mas também nessa ultima vez já não tinha um beijo- nem sequer prometido- debaixo delas.

lembrar me ei sempre que aqueles ramos despidos, neste inverno longo que se atravessou entretanto, que por vezes dançavam violentos nas últimas tempestades , à luz amarela dos lampiões, ao menos permitiam me ver mais claro, além, sem medo de quem se cruzaria comigo e me derrubaria.

na próxima copa frondosa, conto não ter medo da luz que ela não deixa chegar ao passeio, e atravessarei pelo caminho de sempre.





16 04 2018

Subo a rua em vez de tomar o autocarro. Assim terei a oportunidade de, já lá no alto, abrandar o passo em frente ao bar onde por vezes fomos, despreocupados, ou então espreitar para dentro das janelas dos apartamentos do meu edifício favorito no Porto.

Nesta subida vou quase em paralelo com uma senhora, que avança no outro lado da rua. Não lhe consigo identificar a idade, mas andará pelos 50? Ou quase.

Vai com um casaco não demasiado extravagante, aparentemente normal, escuro, sapatos de tacão médio vermelhos, uma carteira que não parece combinar muito e cabelo apanhado, lá em cima.

Vai em  passo rápido e decidido. Nisto desço o olhar e miro-lhe as pernas.

E fico algo perplexa, até hoje não sei porquê, mas imaginando: usa meias de vidro numa cor mais escura do que a da pele e estão todas rotas.

Todas. Não é um foguete descontrolado: são buracos, uns maiores que outros, rasgões. Como se tivesse sido atacada por um gato e isso fosse normal.

Sinto desconforto e não sei se é pelo alheamento da senhora, se é pela hipótese de não ter outras meias, sequer, e ainda assim querer colocar meias de vidro por uma questão convencional, com que a minha mãe me impingiu desde cedo, se é por lhe pressentir alguma vergonha bem disfarçada.

Se é, ainda, por estar muito mais confiante e decidida do que eu alguma vez estive, em viagens de escola com episódios de vergonha até à timidez de balneário , que persiste até hoje.

Aquelas meias eram a oportunidade para eu ter um olhar menos manchado. E falhei.

 

 





11 04 2018

1 – Hoje procurei o pequeno pássaro cinzento e branco de cauda longa que pulava à entrada inóspita do parque de estacionamento da Trindade. Parecia-me tão deslocado, ali, pequeno e ágil fugindo entre pés e tubos de escape, sem conseguir voar, ainda que tentando. Parecia também aqueles entrevistadores ou angariadores de rua, que fazem curvas e contracurvas em espécie de valsa ou patinagem no gelo entre os transeuntes.

Queria poder ampará-lo nas mãos e levá-lo, não consigo explicar a ternura que me invadiu.

Hoje não estava lá. Não vejo ninho de onde tenha caído, para onde voltar. Também duvido que, se mal se conseguia orientar sozinho (estava assustadoramente só) para sair daquela entrada, não pode ter ido longe. Procuro-o, a ver se me deparo com ele esmagado ou caído de lado, como uma peça de porcelana que nos cai em casa e que, miraculosamente, não se parte. Mas não o vejo e tenho ainda esperança, tola, que tenha encontrado o seu caminho seguro. Como se as respostas a tudo na vida ficassem por ali.

2- A mulher fala ao telemóvel na confeitaria. Com a boca amparando o bucal do telemóvel, escondendo a boca, como quem quer evitar que lhe leiam os lábios ou como estando a dizer um segredo a um ouvido invisível, olhando o espaço. Só percebo um “eu quero viver” meio revoltado, mas todas as outras palavras perdem-se num tom de voz reles.

Reles parece-me ela também: cabelo loiro seco e desgrenhado, os olhos pintados de preto, um preto fosco como quem se deitou e chorou (lacrimejou, talvez) assim. Um saco de desporto feio em cima da mesa e um contínuo ruminar indignado, desesperado, indistinto e de dicção rasca e agressiva: palavras abertas mas não redondas. Como um grasnar.

Mais à esquerda irrita-me a mulher que, cedo de manhã, se ri com tanto vigor e alto, sem conseguir pronunciar muito claramente as palavras porque prende o ar entre gargalhadas, na garganta. Um riso estúpido, como se não houvesse um momento de paragem entre algo mais normal, que tenha acontecido e que estaria a relatar, e aquilo que efectivamente teria graça. Deve estar a pensar concentrada e constantemente no fragmentado engraçado, mas é um riso só dela porque a interlocutora, de costas para mim, parece só acenar com a cabeça, em desespero.





9 04 2018

O amor da minha vida faz anos.

Gostava de te ter conhecido pequenita, ainda talvez ali uma felicidade sem medos. Gostava de ter assistido ao primeiro momento, que me dizes ter sido cedo na infância, em que conheceste a tristeza e a decidiste adoptar como espécie de crença, mas não muito convicta.

Vives em tensão, como um elástico: ora pendes para a força e grandes medidas e feitos, perante toda e qualquer circunstância, resolvendo tudo e todos, ora pendes para essas grandes injustiças que sentes, de abandono.

Escolheste ter-me numa altura em que podias descansar e colher alguns frutos. Escolheste ter alguém que te magoa, na espuma dos dias. Na rispidez das manhãs, nos abusos de confiança que não sei de onde surgem, numa necessidade de ataque quando falas de assuntos banais ou quando te sinto confundir com a restante maralha.

Falho em não te amar incondicionalmente, mas penso que isso só nascerá em mim quando tudo o que fui, nas tuas palavras ditas e nunca guardadas (bonitas, de força e encorajamento), deixar de existir  em mim ou através de mim. Como uma fantasia criada que não perdura, ao contrário da obra dos artistas.

Então aí, darei espaço ao amor incondicional que deveria ter enchido o meu espírito desde sempre, mas que não tinha espaço ou necessidade de rebentar a terra e florescer. Far-te-ei jus: espero apenas não te amar incondicionalmente só por precisar de continuar a viver ou de manter a tua memória viva.

 

parabens , mãe

 





4 04 2018

a terra sempre te ganhou. a terra, nuns casos, as raízes, noutros. serás tu que não pertences realmente a lado nenhum? talvez seja porque nunca tiveste que levantar âncora, na tua vida mundana, e só ultrapassas as fronteiras da cidade para ver coisas, queimar o tempo, ganhar fome sem nada fixar.

a terra e raízes , de um lado, tu, do outro. só uns braços, parece. só um farol, também. os faróis só são queridos, por dentro, aos faroleiros e não conheces nenhum. são, portanto, os barcos que passam e vogam, aqueles que te ansiaram ver.

têm todos outro porto que não tu – a velha história. podem ser serras, vales, muros de pedra, moinhos.

não és tão alta, imóvel, anterior a quem te procura, como o são todas essas coisas. todos esses colos e curvas que lhes amparam os gritos, os urros, os sonhos perdidos.

há sempre algo de inocente e brutal que nunca compreenderás, dizem-te. nomeiam-te como tal, mas logo se desenganam: não serás o regresso a nada puro, a nada intocado ou  a nada que os explique no mundo. és um passo em falso: ora já reconhecido ora ainda por admitir.