8 01 2019

Um dia de céu azul gelado, como este. Uma manhã com os raios de sol muito baixos, no caminho para o colégio onde, no futuro, o sobrinho estuda, quem diria. Uma corrida contra o tempo para um compromisso que já tinha assumido, o que significaria ir mesmo que o estômago estivesse em fogo de preocupação com um futuro próximo de exames que já adivinhava catastróficos antes de o serem, como um mostrengo ampliado em sombras por uma chama pequenina, à noite, numa parede lisa qualquer.

Tinha chegado a encomenda, a primeira, vinda dos Estados Unidos. Uma t-shirt amarfanhada, mas de que se orgulharia por mais ninguém a envergar na Faculdade,  não se vendia nas lojas de fast clothing que agora bem lhe enchem as medidas, quando calha.

Uma t-shirt que ainda hoje tem, porque ainda não acredita na dor de olhar para os objectos e ver a crueza de tudo o que se destruiu irreversivelmente numa só hora.

Dura tudo um dia: as acusações, a meia confissão, a tentativa de explicação e a saída definitiva para não mais voltar a não ser em visita, num aniversário morno, a convite estranhamente masoquista da mãe.

Numa segunda-feira bonita e que ainda não tinha o sabor do início de uma semana de nervos, como hoje em dia, por ainda não saber o que é vir à tona respirar num fim-de-semana, três tristes vidas divergem, na casa de sempre, que é a de hoje.

Já não me sinto expulsa pelas paredes. Já não lhe reconheço contornos em sofá algum, a máquina de café não lhe pertence, o lavatório onde lavava as mãos sujas da fábrica é só meu e dela, como parece ter sido sempre.

Assusto-me com a facilidade de saber o que é memória, mas não saber o que ela me faz por dentro.

A um oito de Janeiro longínquo.

 

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27 12 2018

Ao ouvir a miúda do andar de cima, sem lhe saber os movimentos a não ser pelo escarcéu que o tecto me envia, e ao fixar-me na birra monumental e constante dela, encontro uma imagem para ilustrar alegorico-metaforico-tristemente, memórias.

Vejo-te em birra. Contra os meus braços, como os miúdos enraivecidos, a empurrar com o corpo todo, pés fincados no chão, pernas em ângulo obtuso em relação ao chão.

Uma resistência constante e um tremer pelo corpo todo, à espera agora dos braços, que se libertem para me desferir uns murros de punho fechado, talvez no peito, ou nos ombros. Em arremessos, como quem sacode um edredon empoeirado ou uma massa para pão de forno.

Talvez até soltes uns arranques de voz, entre o agudo e o nasalado, já a adivinhar um choro, a tremer da voz e do corpo e da voz outra vez. Curiosamente, não consigo ver o fim da birra, o lançar ao chão, o esticar as pernas e os braços em convulsão como um bicho que não se consegue virar, até acalmar e só se ver o a elevação do corpo a inspirar, expirar, inspirar, expirar, como um motor a desligar até ao abraço final de reconciliação e derrota, talvez o corpo já mole, derrotado e peso morto nos meus braços.

 

 

 





11 12 2018

Aviso à navegação , alerta, alerta, não há estrelas, nem ossos do coração , nem corpos e veias que pulsam por ser-tão-maior-que-tudo-o-meu-ser-recorta-se-em-não-sei-que-anuncio-de-telecomunicações-moderno.

É feito de gritos estúpidos meus, da máquina de lavar a louça com pilhas de louca imensa após cada refeição, por mais singela. Também pode ser ouvido um “mas tens sempre que ir à casa de banho 567 vezes aos dia?” ou podem espreitar a quinquagésima vez em que vocifero por não querer alterar no perfil do facebook a foto ou introduzir aquele anúncio do olx.

O meu amor é feito de cegueira e remorsos. De incompreensões, de mundanidades , de ausências de marcas deixadas, a não ser corresponder , aos 31 anos, a um ideal bizarro, louco, indescritível e que nunca verei em nenhum espelho ou, melhor, que nunca verdadeiramente serei se me olhar nos olhos , finalmente.

E deve estar bem assim, neste arranhar de quadro com as unhas ou arrastar de cadeiras de barulho irritante constante que é a nossa, minha e tua, vida. Seremos sempre remorsos e ideais não cumpridos, eu, porque só eventualmente muito depois de partires irei atingir uma partícula do que queres ver em mim. Tu, porque me ensinas o que é amar com o choro todo , só um choro e tremor, sem palavras, sempre depois de perceber que não disseste, nem fizeste, aquilo que eu achava que mais queria e, apesar disso, querer urgentemente ter te sempre mão na mão.

À mulher que tem todos os ideais e que me faz ser há 31 anos, ou mesmo mil, um beijo no coração e um pedido de perdão mísero .





24 10 2018

ontem, enquanto arrumava a roupa do dia que estava pousada na cadeira de palhinha, dei por mim a pensar que, se eu tivesse agora um rebento novito (ou o estivesse para ter em breve) não gostaria nada do que tinha para lhe contar sobre a minha vida.

aquelas histórias bonitas e sólidas que se contam aos filhos, mesmo quando mais adolescentes, dos amores e desamores, das aventuras e dos feitos, e dos momentos em que tivemos que ser maiores e até descobrimos ter princípios, ainda que não sejamos perfeitos ou deuses (esta parte é já um murmúrio, claro, que aos filhos é difícil não se projectar essa divindade desejada).

tenho uma série de episódios e pessoas na vida que são como que soluços, interrompidos por algum sorver e reter de ar momentâneo, para que o diafragma e a mecânica voltem ao sítio costumeiro. não que me tenham tocado pouco, que as esqueça, nada disso. são só inacabadas, não sei o que de mim retiraram até ao fim, o que lhes dei e gravei.

 

 

 





12 10 2018

uma tosse abafada, ao longe, debaixo do chão (que ironia) e que deixa de se ouvir. já era mais do que ouvia do meu pai, no correr dos dias. era de outro corpo e vida, dos quais se soltava aquela tosse, mas que também fez parte carinhosa da minha infância.

dos quais se soltou aquela vida. um sopro, só. foi, literalmente, isso. sem ninguém de mão dada. e só agora, bruta, percebo a desolação disto (percebo no sentido de sentir de raspão, não de compreender com inteligência: não a tenho para isto, está visto).

tiram um corpo que ontem era vivo, imagino que pelo corredor fora, pela porta, pelas escadas onde hoje passei de manhã.

lá vai ele, sem mais nada cá, até o arrumarem debaixo de terra.

quarto, corredor, porta, capela, terra. como poderemos nós imaginar este caminho, quando o fazemos em duas pernas, até à capela apenas (por enquanto…) e sem saber quando o coração vai parar? sem saber o exacto momento em que parou de bater e não se lhe segue outra batida? esse milésimo de segundo, que nos apaga.

resta pensar que nada sabemos do nosso nascimento a não ser o que nos contam e que, com a morte, passar-se-á o mesmo, mas sem mais intrujice e narrativas que nos conduzam para aqui ou para ali.

acabou assim a luta de fazermos a nossa história connosco bem presentes e lúcidos, sem que ninguém nos refaça mais os movimentos de bebé, as rugas, os traços já tão parecidos com aquele e aqueloutro, aquele primeiro passo ou palavra, sobre os quais a doutrina diverge.

descansarei também, um dia, de fazer narrativas e conjecturas sobre os outros enredados na minha vida, como se fossem fios de auscultadores que se transformam, quase miraculosamente, em vários nós complicados (a ironia da homografia…) dentro do bolso, que assim se compõem sem intervenção minha. deixarei de lhes determinar os passos, cravando-lhes qualidades e defeitos que sempre servem para compor uma imagem, ou memória, vá lá.

 

 





9 10 2018

Nem eu sei  o que é viverem-me fora do corpo. Ter um coração, meu, fora do corpo.

Mas parece-me que sou o de alguém. E, simultaneamente que não sou o de outro alguém.

Acaba tudo no corpo: um dos corpos, tão diferente e que te substitui agora (em bom rigor, desde então). Chegam-te ecos dos adornos tão díspares dos teus, das formas tão diametralmente opostas que parecem ser do outro lado do oceano (e não é que são, literalmente, assim?). Corpo esse que, respeitando as leis da física, ocupou o teu lugar vago, rapidamente, e que parece ter estado sempre lá, em sonhos.

O outro corpo é o teu: mas já um bocado arrancado ao que és, à tua voz. Um corpo feito de flancos oferecidos, com vários golpes de rins e que na noite seguinte te faz questionar, mesmo em voz alta no escuro do quarto: a palavra cobardia tem algumas pontas afiadas (ali o b e o d, agudos, e mesmo o ponto do i), mas não sabias que eram gumes de golpes de faca.

Há cobardias feitas de acção (e isto parece-me uma conclusão estranha porque associo logo cobardia a inacção e imobilidade). Cobardias feitas de palavras soltas, tempos a tempos, que não são caladas quando quem as profere não tem rigorosamente nada para dar ou contemplar, ver, sequer, na outra pessoa. Já nem olham, nem um único olhar cruzado.

O corpo que te há-de levar e esconder e que nem alma, sopro de ideia, bafo, o é, nas suas cabeças e corações.

 





4 10 2018

numa mesa de madeira, sentada a um banco sem costas, a massacrar só um pouco mais a coluna (e, curiosamente, irá aniquilar qualquer coluna vertebral, no sentido literal e figurado, até ao fim da noite).

uma pessoa em frente a si, interpelando-a de forma calma e interessada e que faz parte de um segmento da sua vida, profissional, de que ele mal sabe ou quer saber, a não ser por uma ou outra pergunta introdutória de conversa que atira de quando em quando, sem realmente ouvir a resposta.

há um ecrã, seu, que de tempos a tempos pisca. não houve nada escrito, para si, para dentro do seu coração esponjoso (e que esponja, que mata borrão que aquilo é….) que a valorizasse de forma especial, que lhe afagasse o ego, que a fizesse sentir especial e amada mesmo numa distância de ruas e vidas.

mas qualquer coisa numa frase simples, semelhante a “desculpa o incómodo”, associada ao cenário que reconstruiu ao longo da noite na sua cabeça com a ajuda das descrições que ele lhe foi dando (o copo de vinho, o degrau solitário, o silêncio só cortado pela procura dela), resultou numa decisão impulsiva: um grande gesto à filme/ série delicodoce romântica, pois seja.

o impulso, apesar de rápido – raio ou véu que lhe passou pelos olhos-, assemelhou-se mais a uma morte lenta. melhor: a um assassinato lento. uma cena que, vista de fora, foi uma sequência irresistível de fatalidades com tudo para correr mal, resultado final a que a protagonista era alheia, como quase sempre nos filmes e séries.

a partir do momento em que essa ideia se lhe alojou nas têmporas, a perna direita abanou à velocidade e constância de asas de colibri. se houvesse uma máquina de costura em frente a si (que nem sabe costurar), e um pedal debaixo do pé direito, teríamos vestido pomposo em menos de uma hora.

as escadas e ruas desapareciam à sua frente, mal lhes tocava com os pés acelerados ao encontro da porta de casa, já fugia em tapete rolante.

um só toque de campainha e a espera melodramática desses produtos de ecrã, com os movimentos muito lentos do outro lado da porta. o plano de tragédia cada vez mais perto de um fim pastoso, como se o celulóide se queimasse a uma velocidade vertiginosa, mas só conseguíssemos ver em câmara lenta, em total desfasamento de velocidades.

seguiu-se o tempo, rápido, com a calma a instalar-se, uma voz interior que dizia: afinal, foi bom, cara a cara, a vida real, afinal há calma, controlo, normalidade, ganhaste um espaço teu, finalmente dentro de ti e não fora.

no lance final, como um elástico que foi esticando até ao limite sem se dar conta, perdeu o espaço.

mas, como em qualquer história triste, não foi ali ou no fim daquele tempo que percebeu, dolorosamente, quão pouco pode significar para alguém e, simultaneamente, estar a presença desse mesmo alguém. foi no silêncio seguinte, na fuga dele e agora pensa, agarrada a tapar a cara apesar de ninguém se dependurar no tecto do quarto a espreitá-la, que nunca viu tantas fugas de uma só pessoa com tão pouco tempo a mediar entre elas.

pensa, ainda e em apoteose, com a cara arrepanhada a abafar o som ridículo dos soluços, que o tempo de vida esvai-se e somam-se as perdas: das pessoas, mas sobretudo do tempo. há-de morrer com duas mãos cheias de perdas, povoadas de pessoas que não estão ali nem aqui, e que nem preenchem as horas que passam, nem lhas dão.