19 06 2017

O pai dele morrera. Era esquisita a distância que, agora, a morte apressadamente obrigava a encurtar. Lutava-se contra o tempo, encaixando tudo o que não se dissera e o que nunca haveria de recuperar naquela burocracia de tarefas que não fazem parte do dia a dia de ninguém: escolher caixões, flores, sítios, cartões de anúncio de falecimento.

Parecia-lhe vê-lo a andar em círculos, mas com aparente normalidade e sentia uma urgência de fechar o chão sobre aquela pessoa falecida, a ver se se conseguia dar algum passo assim.

O que mais a afligia, quase em pânico, era que não parecia haver dinheiro para fechar aquele capítulo. nem conseguia imaginar o que aconteceria se, logo no dia a seguir (tão pouco tempo para uma pessoa se aperceber do que aconteceu!), não fosse possível juntar o dinheiro e pagar para o enterrar.

Assim, enquanto ele andava aparentemente a continuar a cuidar de trabalho, porque assim tinha que ser, olhava-o e cada vez mais lhe parecia o pai acabado de morrer. Se onde surgira aquele bigode? Tudo o resto, a compleição física mais emagrecida e a forma de colocar a t shirt nas calças, já se vinha assemelhando há uns tempos. Só a altura denunciava que era o filho vivo.

O desespero que a levava a pedir aos amigos, como quem vende rifas, ajuda para o funeral não se coadunava com o semblante de recolhimento ou o ritmo lento e magoado que impera nestes momentos.

Ele lá continuava a falar com quem trabalhava com ele, em sua volta, como numa reunião habitual.

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