16 06 2017

não julgues que sou sensível: é uma coisa delicodoce, de vez em quando, lembrar-me que deixei de ver o rapaz com cabelo encaracolado emaranhado e semblante muito calmo e absorto, nas redondezas da minha casa,e  sentir um vazio na garganta.

esse rapaz agasalhava-se sempre de mais para o calor que fazia, talvez porque fosse mais fácil trazer a roupa assim.

tinha uma mochila puída, movia-se lentamente, sentava-se nos degraus do multibanco de cotovelos nos joelhos a pensar na vida.

fazia horas para o coração da cidade. por vezes, eu achava que podia estar bêbado, mas não. ainda dormiu umas vezes por ali, mas fundamentalmente esperava nos degraus das casas. eu inventava-lhe fugas da família, desejos de solidão, vozes na cabeça. mas nunca pediu dinheiro, nunca lhe falei. havia ali uma autosuficiência (bastava-se sem contacto), mas uma tristeza dentro de um vidro, que nunca poderíamos alcançar, muito menos eu que tenho tudo (até uma cartilha para viver a que não dou uso, que ridículo).

Anúncios

Acções

Information

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: