20 02 2017

o meu avô paterno tinha uma escrivaninha, organizada, própria de comercial grossista. tinha blocos de notas aos quadrados, com caravelas na capa, que eu rabiscava sem noção.

também tinha um móvel na sala, da televisão, e com uma porta que se abria e de onde saía a aguardente. o cheiro da madeira do móvel era maravilhoso: odeio aguardente, mas cheira sempre àquela madeira. dizem-me que cheira sempre, mas eu ainda acho que é da madeira do móvel.

ele, além de beber o vinho da garrafa verde escura com aquelas tampas que têm uma mola de metal, bebia daquela aguardente amiúde. ao que sei, apesar de ele até ser simpático comigo e gostar de conversar comigo, era inteligente, acutilante, mau, bêbado e atrevido.

pelos vistos, era mesmo de andar por fora, de se atirar às mulheres todas, de não amar os filhos. mas nunca vi: só me mostrava os coelhos e as galinhas, lá fora, mas sei perfeitamente que não tinha grande carinho por mim.

era assim cheio de vícios, mas uma vez disse-me: vou ensinar -te a comer uma banana com classe. e mostrou -me como se descascava, colocava num prato, se cortava ao meio com faca e garfo, e fatiava, minuciosamente, a banana.

cheio de volúpias, maldades e manias, mas a banana comia-se de faca e garfo.

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