2 02 2017

é curioso como o andar daqueles que achamos estarem dementes ou alienados é hesitante, titubeante- não necessariamente errático. vão ali pé ante pé, têm movimentos mais lentos, mesmo com os braços e associo isso sempre a uma invectiva inesperada qualquer. aquele momento de espera entre eu passar ao lado deles e aquele em que ele ou ela se mexem finalmente, é quase torturante.

de repente viram-se, apontam o dedo, vêm como que perguntar as horas ou assim e nós despachamos logo.

até há pouco tempo não despachava. não conseguia: egoisticamente pensava que um dia podia ser a mim que me faltava um euro para o comboio.

passei a acelerar o passo, como fiz ontem rua sá da bandeira acima. lá ia um negro alto, vestido com meio fato meio outras peças. apontava, dava urros de vez em quando, interpelava as pessoas. só pedia “por favor não te atires para o meu caminho”, finta e segue.

não sei por que artes mas surgiu logo após no minipreço como se ainda agora tivesse estado lá. finta de novo dribla, corre, não importa: conseguiu mesmo interpelar-me.

enquanto fala para outra senhora pequena, de socas , meias de lã, avental, despachada lendo revistas e que só ouço a responder

oh escusas de me dizer o que estás a dizer já sei tudo sobre isso, muito obrigada, falo muitas línguas

percebo que ele lhe pergunta se sabe falar francês, como é que é possível ela não saber, depois de terem estado em África tanto tempo . Vangloria-se daquela constatação de selvajaria da nossa parte.

Mas pergunta-me, ainda neste seu pedestal:

Diz-me como sei falar francês!

E então pareceu que desde sempre tinha tido uma resposta para ele, desde lá de baixo, de perto da praça D João I onde o evitara

-Porque aprendeste.

Arregala os olhos azuis, a única vez que os consegui olhar directamente.

Boa resposta! Muito boa resposta é isso mesmo. E como é que em África, no Congo, falam francês?

Já avermelhada, como sempre,

Porque os colonizadores Franceses lá estiveram

De novo espanta-se, hesita-se, hesita naqueles tais movimentos mas que, agora, indiciam alguma alegria, algum orgulho.

Avança na sua fila e eu na minha, pede para se pagar aquela cerveja, lança um cheiro pestilento que provoca revirares de olhos e de costas nas meninas das caixas, que espoletam um

Jesus senhor

da senhora que está atrás de mim. Vou percebendo o que está a acontecer e parece-me ouvi-lo dizer algo que indicia que admite também o que acabara de acontecer.

De repento ganho vergonha de novo, vou-me afastando enquanto ele se aproxima de novo, tento parecer normal a ensacar as compras.

De onde és? pergunta-me

Irresistivelmente, respondo-lhe que sou do Porto. Enumera-me freguesias de Gaia, dizendo que é de Avintes, e que o Porto é grande e as engloba, apontando-me assim a minha falta de rigor e preciosismo.

Respondo-lhe distinguindo bem as freguesias de Gaia das do Porto, calma lá que eu sou mesmo desta cidade, esta cidade é minha a bem dizer, eu cá nasci e andei e aprendi a andar numas ruas acima daqui.

Gostei de falar contigo, une bonne Mercredi petite fille, diz -me ele.

Rio-me sem nunca o olhar de novo a dizer olha Merci que é o que sei dizer.

 

 

 

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