2 10 2016

-“desculpa lá filha”

e virou numa rua à direita que eu não esperava.

-“deu-me uma súbita vontade”

Olhei as árvores de amarelo maçã doce e as cruzes à sombra gélida e percebi. Vamos, então.

Aproveitei uma nesga de sol naquela pequena praça para me aquecer, enquanto foi buscar duas rosas (amarelas, desta vez) e duas velas de invólucro azul escuro. Está ainda menos gente do que o habitual, ao Domingo, e sinto-me reconfortada por isso.

Vamos pelo caminho do costume até ao fim do cemitério, onde estão as gavetas, empoleiradas. Tantas já sem nome, outras com fotografias bem nítidas e recentes de pessoas cujos traços nada me dizem  – eu ali, a vê-las, num domingo de manhã, podia prolongar-lhes um pouco a memória mas nada disso, é como se passasse por elas na rua e até, se calhar, lançar-lhes-ia impropérios por irem demasiado lentas à minha frente.

Dá-se início ao ritual de ir buscar escada, subir, tirar copos, lavá-los das ramagens secas na fonte que esparrinha tudo mesmo ali ao lado, subir de novo, chegar flores, encaixá-las como quem acende uma tocha olímpica.

Como que se acendem ali dois beijos, um de cada lado da gaveta. Lembro-me de antes de entregar as rosas para encaixar as ter olhado de cima para baixo, e de as achar tão perfeitas de tão enroladas estavam sobre si mesmas.

Desencosta a escada, para se ver melhor aquele pequeno altar e vamos acender as velas, então. A cera que pinga é também azul escura, o que me faz lembrar quando, em miúda, achava que os desenhos do sangue venoso e do outro eram literais e realistas, explicando as minhas veias sempre demasiado azuis na pele sempre demasiado branca.

Lado a lado, agora ali na base das gavetas, no chão de cimento.

Afasto-me uns passos até me sentar na beira da espécie de passeio que se forma em frente, com os lados esquerdos de todos os jazigos que por ali seguem. Encosto os cotovelos, finalmente, aos joelhos e consigo repousar a cabeça nos braços e a testa nas mãos.

Consigo ainda chorar sem que ela se aperceba de nada e ache que é uma constipação (já não é a primeira vez que isto acontece). Isto aconteceu rapidamente. Sentei-me, surgiu um grande cansaço, repousei a cabeça, ainda olhei para cima e , no silêncio, arreganhei a cara. Fechei os olhos, puxei a boca e o nariz como se me risse mas de uma forma estranha e contive soluços vários que me ficaram para sempre na garganta.

Passado pouco tempo, fiquei surpreendida com a pinga de lágrima que me caiu mesmo no joelho: eram lágrimas gordas e desesperadas por saltar, portanto.

E só depois disto acontecer, curiosamente, é que comecei a justificar com palavras aquela tristeza. Ah quando for ela virei aqui, que vazio, os dias, as noites, nunca mais.

E isso só me arrancava mais soluços, mas tenho a certeza absoluta que os primeiros, os olhos fechados , a cara a doer, e a dor no peito não tiveram palavras nenhumas dentro.

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