7 09 2016

Querida mãe,

É hora de almoço. O sítio onde me sento é muito escuro. Não recebe luz directa da rua, fica lá ao fundo do restaurante e só há aquelas luzes brancas odiosas que tu sabes que me perturbam.

Ao fixar ali a prateleira dos tabuleiros, apercebo-me que não vou regressar a ti ao fim do dia. Como é que é possível? Como é que eu acabo isto? Como é que eu dou um final ao dia, para fechar ali um pequeno capítulo e aguardar qualquer coisa nova do dia seguinte?

Que porcaria de bacalhau e que grande mentira essa, de as coisas de quem amamos ficarem em nós. Não quero a memória da comida, nem sequer tentar reproduzir isso com ensinamentos. Quero, irracional e tão infantilmente quanto possível, sempre, a tua comida, que é mesmo tua, que são as tuas mãos a fazer e os teus braços e a tua posição de Napoleão na cozinha.

Que diabo, como é que eu refaço os teus diálogos e reacções a coisas novas que hão-de surgir? É isso que me interessa.

Consigo facilmente identificar um ciclo sem fim de culpa, por todas as vezes  que não te quero ouvir –  ou não ouço atentamente e só suspiro hum hum-, seguida de uma saudade imensa a meio do dia por adivinhar um fim anunciado. Normalmente, no dia a dia, tomo muita coisa como sendo impossível de resolver, irremediavelmente votada à desgraceira irrecuperável (o erro na peça, o erro na interpretação da conversa, a falta de solução de um imbróglio jurídico qualquer).

Mas, como sabes, após ver tudo branco e quase desmaiar, acabo por, ou perceber que estava a sofrer em antecipação sem motivos racionais, ou verificar que do chão não se passou e tudo acabou por se compor por caminhos que nem sondei como possíveis, na cegueira histérica.

Só que a sensação de desgraça irremediável mais forte que tenho é a da tua ausência, que convoco quase todos os dias de forma doentia.

Pus os óculos de sol que, de forma egoísta, disse que alargarias e escondi as lágrimas de imbecil.

Um beijo,

 

 

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