9 08 2016

Demoramos a partir viagem – parece que ainda temos que nos libertar de braços e mãos que tocam. escada acima, escada abaixo, num medo perene que partam sem nós (há sempre alguém que parte sem ti, não há sincronizações apocalípticas).

Parto sem sentir que me liberto, mas logo me deixo levar rua abaixo e, pela primeira vez, sentir prazer porque quero guardar aquela imagem para a colocar noutra parede triste.

É um prédio, um paralelepípedo compacto, azul claro.

Janelas de casas todas apagadas e num silêncio que parece intencional, de espera.

Atrás, um parque de estacionamento aberto, de alcatrão preto a contrastar com as linhas brancas. É o que separa o prédio da fileira de pinheiros. Um único carro ocupa o rectângulo exacto que lhe cabe. O carro é da mesmíssima cor do prédio. Quão provável é que isto aconteça? O prazer daquela ordem que surgiu aparentemente do acaso dá-lhe lágrimas a transbordar dos olhos. Quer guardar, avidamente, aquela imagem e ser a primeira a mostrá-la ao mundo. Uma presunção de descoberta que não é desejo de partilha: ninguém ficará com a água a transbordar da pálpebra inferior pelos mesmos motivos.

Adiante, consola-se com um telhado e fila de janelas do último andar de uma casa. Corta assim as coisas, aos pedaços, e assim parecem-lhe mais bonitas. Mais calmas, sem se atropelar com o mundo todo a aparecer de uma só vez.

Anúncios

Acções

Information

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: