20 07 2016

nas suas costas: melhor, aquilo que diziam, dava-lhe pelo ombro direito. meio em surdina, mas com um volume que lhe permitia ouvir, claramente, o que diziam, sem no entanto identificar um início para aquela conversa.

-…e ele, nem imaginas, dava-lhe uns beijos apaixonados por aí fora, à frente de toda a gente, ui, era uma loucura.

-a sério? – sem ponta de incredulidade, na voz, apenas um pequeno lamento.

– é verdade. E, para quem quisesse ouvir, dizia-lhe assim coisas românticas, do género, amo-te muito, logo ali a matar. Até parecia que não tinha ninguém à volta, era mesmo bonito.

o peso às costas, sempre na omoplata mais levantada: não faz mal, aguenta mais um bocado a dor moída e entra na sala.

não melhorou, nem lhe abriu o sorriso, como tinha quase a certeza optimista estúpida de que iria acontecer: invadiu-a, antes, uma falta de ar que lhe dava vontade de se aninhar a entoar o mantra do costume para se acalmar.

todos alheados em jornais ou papéis que os enervavam, nem um olhar de calor e, estocada final, uma voz impaciente e desdenhosa de reacção a uma pantominice qualquer que havia feito para início de aula.

-anda lá, achas que temos paciência? achas que isso é alguma coisa e queres palmas? não tens a piada que julgas ter.

isto era-lhe dito pela rapariga que, ainda para mais, lhe dizia isto sem sequer virar o corpo para si: só inclinava a cabeça na sua direcção, meio obliquamente, a avaliá-la num esgar de desprezo sem interesse, feito com a boca.

Anúncios

Acções

Information

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s




%d bloggers like this: