2 05 2016

consegui ver-te o interior sem desmaiar e fiz o diagnóstico: tinhas a veia cava entupida, remover-te-iam um rim. fico, assim, com a conta de dois rins de quem amo.

sobressaltei-me bem mais agora, ao pensar-te numa cama de hospital, por me reconhecer inapta para tratar da fileira de agrafos de que trataste tu há mais de dez anos. quis culpar-te pelo sucedido: dizer que era dos teus hábitos diários de adiares idas à casa de banho e outros pormenores estúpidos que tinha provocado exactamente isso.

que injusta e infantil: pagarei por tudo e digo isto tão levemente.

só por causa disso, saio meio cega para fora da cidade, a ver se me calha alguma paz. esqueço-me que a aventura não me dá nada disso e vejo-me no meio de duas cidades ou vilas descaracterizadas, em agitação: algo se passou com o comboio, todos correm de um lado para o outro, e aquele rapaz de talvez dez anos entra de olhar perdido até me encontrar.

sei já que está perdido e não largará a minha presença, mesmo que nem reflicta que foi abandonado e está sozinho no mundo. é um medo avassalador, o meu, de não saber valer a quem é mais frágil que eu. parte dois da cobardia.

enfim, pacifico-me na terceira parte da história: sei que vou assentar arraiais em novo sítio e deleito-me a visitar espaços alcatifados ensolarados só para sentir o que é estar num sítio que está sempre sozinho e em silêncio.

 

 

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