28 11 2015

o meu pai à minha frente numa mesa de café? já me sinto exausta pelo imobilismo que sempre resulta de eu saber exactamente tudo o que dizer desde o início dos tempos, a sua copiosa quantidade e a vertigem de querer ser exaustiva e, por outro lado, a perfeita noção de que nada se enfileirará nunca num esquema final e esclarecedor que – de certeza – roçará sempre uma linha paralela do seu pensamento.

no princípio achei que fazia sentido ser, finalmente, ele à minha frente, porque me falava de uma inevitabilidade quase científica em se deixar de sentir algo por outrem. era um modo característico de ele desfilar sobre o mundo.

quase como quem explica como se deixou de roer as unhas ou de fumar, atalhava com um encolher de ombros e desviar de olhos – que podia perfeitamente ser seu- que caía assim, do céu, uma certeza morna de repente no colo, a anunciar-se de surpresa.

a sensação de que algo estava estranho no cenário apenas se fez anunciar pela profunda tristeza e angústia que senti ao ouvir essas palavras e ao perceber que, ainda que falando de tais coisas sérias, se estava somente numa superfície. não era algo que pudesse demonstrar ou reconstituir através de factos ou de um pedaço de diálogo sequer, ainda que ilustrado com entoações ou intenções.

foi uma angústia física bem abaixo do esterno – quanto agradeço às manifestações físicas por me darem certezas que me parece que nunca mais vou conseguir descrever por palavras.

a certeza de que eras tu e não ele a falar-me espalhou-se, como uma tinta se espalha feito polvo dançante num copo de água onde se enfiou um pincel.

tudo o que dizias me fazia pensar, de uma forma demasiado rápida, que não é característica nas minhas reacções: todo  este repente vem tão bem embrulhado em tanto tempo acumulado, que estupidez, claro que não há repentes – está sempre tudo a acontecer neste exacto momento e nem lhe conseguimos tomar o peso.

olhei-te baralhada, enquanto pensava sem falar (como de costume perante ti e ele, de igual modo): acho que já não me importo com o tempo que demora a acontecer, mas sei finalmente que me magoa profundamente que não se queira passar da superfície.

posso dizer finalmente que não quero que se descubra o início da meada – seria mais como dar-te um baralho para as mãos, dizer-te para escolheres uma, guardares para ti e não me dizeres e, no final, eu não adivinhar coisa nenhuma (acham mesmo que teria coragem para isso?) e saber, definitivamente, que há uma carta fora do baralho . e que não seria eu.

tudo isto pensei tão rapidamente e disse-o de forma tão clara e cínica, que logo vi que estava a falar sozinha outra vez.

 

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