7 08 2015

Debruçada na janela vejo uma tartaruga oscilando levemente à volta de uma lata cinzenta e arestada.

Não parece caminhar em direcção a nada, muito menos ao caranguejo laranja, cor de tijolo, mais vigoroso, que lhe barra a passagem. Creio que ele está convencido que encontrou um amigo de longa data e parece acenar-lhe, gabarolas, mas a tartaruga segue triste com alguma realidade que se lhe assomou ao espírito de repente, como definitiva, concreta como um “nunca mais” desesperançado de que toma, finalmente, consciência. Há sempre uma fatia de tempo a barrar a porta sem a deixar fechar, como quem diz, “olha não te esqueças, é que morreu, vai lá ao funeral, lá para as três”.

De forma que estão os dois nesta dança dolorosamente lenta, um a fugir da solidão de não ver ninguém há dias – de não lhes sentir os ossos, nem lhes partir as cascas! e o outro, esquecendo-se de da carapaça que arrasta, fica tristonho fingindo despiste, sem retirada estratégica que lhe valha.

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