26 07 2011

nunca tive medo de morrer, eu mesma, nunca me detive a pensar no momento em que se apaga os olhos e tudo o que fica não existe. agora consigo pensar ou antever uma imagem foleira, daquilo que ficaria, algo parecido com as reconstituições de crimes e desastres,  dos canais de televisão.

tive sempre terrores nocturnos, e angústias diurnas, pela morte de uma ou duas pessoas no máximo. sempre por mim, claro. eu ganhava medo e caos e vazios com as perdas. não sabia bem e continuo sem saber o que é agarrar o tempo pelos malares com as mãos em concha e olhá-lo de frente. estive sempre desconfortável com o aproveitar todo do tempo para depois não ficar com remorsos, e dores e irreversibilidades às costas, mas a verdade é que ficamos mesmo. a verdade é que ficamos só com o que foi, já não é nada, já não acontece nada, e as memórias vão mesmo ficando mais ténues até serem um caroço pequenino e ressequido de um punhado de imagens essenciais, sempre as mesmas, recorrentemente.

mas, agora, meu amor, tenho medo de morrer. finalmente, deixei de me achar invencível  e nem por isso penso na falta que vou fazer: só não quero chegar ao momento de não saber mais, de não te lembrar sequer alguma outra vez, e ter que ser eu a deixar-te , sem ter que esperar por um fim que , depoir , faria sentido.

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