.simbolos e memória

11 10 2008

  V: A building is a symbol, as is the act of destroying it. Symbols are given power by people. A symbol, in and of itself is powerless, but with enough people behind it, blowing up a building can change the world

in V for Vendetta (filme)

Partindo deste mote, vou virá-lo ao contrário. A frase fala de se destruir um símbolo, sendo que essa destruição tem poder por ter pessoas por trás dela, assim como o símbolo tem poder por ter pessoas por trás dele.

Ao ouvir hoje a notícia no telejornal acerca da transformação do Forte de Peniche em Pousada lembrei-me logo desta frase. E , já agora, do condomínio de luxo em que a sede da PIDE/DGS se vai transformar.

Se não estou em erro,  julgo ter ouvido o desejo de se ‘conciliar’ a obra com a preservação da História que aquele edifício representa.

Vou tentar não ser extremista: é impossível. Lamento, mas quartos de dormir, serviço de quartos, e caras felizes a acordarem com vista para o mar são incompatíveis com o denso silêncio que se vive ali.

Visitei o Forte era bem pequena. Tinha alguma noção da História e nunca me esqueci do silêncio que pediam em respeito pelo sofrimento ali vivido, bem como da estória relatada da criança que pensava que o pai não tinha pernas, porque sempre que o via e podia falar com ele estava sentado.

Podem não se verter lágrimas, mas ali foram torturadas pessoas. Especificando um pouco mais: arrancaram-lhes unhas, deram-lhes choques eléctricos, colocaram-nos em cubículos para que não se pudessem sentar com uma pinga de água sempre a cair na cabeça ou uma luz ligada, para que não pudessem dormir.

A vista para o mar dos presos daquele Forte era o desejo de fuga com lençóis ou com o que desse, nem que se encontrasse a morte. Abririam os braços e já não davam pelo nome.

Talvez porque me doa (não é o egoísmo de cada um que conciliado com o dos outros contribui para o bem comum?), não quero permitir que alguém consiga relaxar e ser feliz alheio a isto. Brutalizaram-se pessoas e todo o Ser Humano naqueles sítios. ‘Injustice anywhere, is injustice everywhere’, disse Martin Luther KIng.

Assim como me dói e magoa saber que se vão reparar refeições , contar um dia de trabalho, ou pôr as crianças a dormir no sítio onde outrora foi a PIDE/DGS.

Isto não porque pense que os sítios são assombrados, à semelhança das não construções por cima de cemitérios índios. Não porque queira apenas respeitar tanto e tão pouco. Mas para não esquecer. Eu sei que se esquece se não estiver algo palpável ali , alimentado pelo mesmo conjunto de pessoas de que fala a frase. Eu sei que virá alguém dizer que a História foi adulterada e ‘não foi bem assim’.

Foi. Espancaram-se mulheres grávidas e morreram pessoas torturadas. Ainda é em tanta parte do Mundo, como se tudo se repercutisse em ondas surdas.  Independentemente de qualquer fundamento possível e imaginário, não aceito, recuso, perante este sofrimento e conhecimento, descartar os sítios onde isso acontece, ignorar o silêncio pesado e encolher os ombros à possibilidade de fazer sentir isso, solenemente, ao meu sobrinho de cinco anos.

Perguntei em voz alta a mim mesma se os Alemães terão sido no meio da bestialidade iluminados ao prepararem os seus campos de concentração em enormes descampados no meio de nenhures , para o caso de mudarem de ideias conseguirem tratar decentemente os erros do passado e nós de antemão considerámos a Baixa Lisboeta e a vista para o Mar para fins semelhantes, para ‘mais tarde dar jeito’.

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2 responses

12 10 2008
lu

parece demasiado fácil apagar tudo

tapamos os olhos e fingimos que o passado não existe…simplesmente para que no futuro haja desculpa para uma nova primeira vez?

(o mundo gira, mas também a História anda em círculos. risco?)

5 06 2009
Contra_producente

Eu já ando há muito a bater nesse ceguinho no meu blogue. Uma Lei de Preservação da Memória continua na gaveta, até não sei quando.

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