20 01 2010

“Estamos sós e sem desculpas”





11 01 2010

lembrei-me que cinquenta metros doem, mesmo que eu diga que não: finjo que choro porque me doem os braços, escadas abaixo e pelo passeio e ainda contornar a esquina e os meus olhos atravessam as traseiras e chegariam lá muito mais rapidamente. penso que à chegada têm que haver palavras e então recolho os braços pelo mesmo caminho e penduro as lágrimas a fingir que são orvalho nos ramos nus da árvore junto à janela.





5 01 2010

Mãos e maxilares. Já foi tempo da borracha verde, das suas arestas com meias luas pequenas irreversíveis feitas pelos meus dentes e de um cabelo e roupa no indicador de amenas conversas. Não seria por rebeldia, se na imobilidade acidental que supostamente me daria uma lição de vida superior, continuasse a ranger os dentes, como faço. Um movimento inútil, talvez dos poucos inúteis do corpo e cérebro humano e aqui estou eu a revelar-me toda num gesto inútil, a fugir ao adjectivo própria de inútil,a  mim mesma. Nâo seria mal de todo, ser inútil, se eu for os gestos que faço. Será talvez a cadência da morte das palavras, desde há muitos anos, quando sonhava ou dizia baixinho : agora vou fazer de conta que comecei a falar agora e nunca disse nada (era uma vontade forte minha, de repente perder um rasto do que sou).





2 01 2010

Pull me out of the aircrash
Pull me out of the wake
I’m your superhero
We are standing on the edge

lucky – ok computer – radiohead





2 01 2010

Devo dizer-te que abri os olhos e fechei-os, com uma lentidão especial de caçadora e esperei só saber o que vira depois de revelada. Não queria a verdade, queria uma imagem, nem a realidade sequer: a imagem com cores, isso eu sabia, e que o bater do coração de dedos sobre a minha respiração me ia dizer o que era.

Não bom, não mau, só a respiração a dar o veredicto pelos tempos fora, a ousar mudar a nitidez ou a manter os contornos duplos, dúbios e a não esquecer o arrastar e o borratar do espaço, sem choro a justifícá-lo, só a fraqueza-ou não- de não se ser imóvel com um frémito que deita- ou não- tudo a perder.





1 01 2010

yesterday





1 01 2010

You can laugh
A spineless laugh
We hope your rules and wisdom choke you
Now we are one in everlasting peace

We hope that you choke, that you choke
We hope that you choke, that you choke
We hope that you choke, that you choke

exit music (for a film) – radiohead





30 12 2009

por falar em atentados à família:

caso prático n.º1 – é uma mãe, cujo marido está em Angola a trabalhar, que tem um filo de seis anos ( e já tinha um filho quando foi contratada). Moram no Porto, foi contratada para o Porto, mas para não haver aquele risquito de não renovar contrato, deslocam-na todos os dias pra Coimbra (ou se quiser que fique lá) e a criança fica com os avós. ou vê a mãe ao deitar-se ou ainda, na maior parte das vezes, em sonhos.





22 12 2009

com uma expiração, expio quem acabo por ser e espio quem quero ser





19 12 2009

numa reentrância de um prédio, à porta do mesmo, debruçado sobre um corrimão a olhar para o chão. para a rampa da garagem contígua, aliás.

a fumar sempre, sem fitar nada a não ser a queda dos pés sob o chão. vai, não vai, quer se lançar numa tormenta quando ficar com os olhos cheios das lágrimas e do sangue que corre. por uma vez não vai ser face abaixo, quais costas sensuais por uma porta após ser fechada com estrondo. vão ser como chuva sem uma única superfície mover-se por ela. sem uma rajada que faça alguém mais sentir uma chicotada de agulhas na cara e dizer que diabo está a chover.

podia ter dores de barriga e fazer de conta que era a barriga da mãe e pode custar-lhe a cabeça sustentar uns olhos que depois vão querer ver tudo e inclusive as vozes que antes não se lhe dirigiam de forma alguma. mesmo que não falem com ele, se ele levantar a cabeça, vai ver outras conversas e vão esperar que ele tenha o tamanho que aparenta.

é um tapete pendurado ainda não recolhido.