10 11 2009

hoje uma chuva maciça de fogo de artifício vermelho ondulava e escorregava por um corpo abaixo, em diagonal em movimento constante. talvez fosse o reflexo fosco  de um incêndio no corpo, a que se assiste impotente. o chão estava chovido vencido.





7 11 2009

tenho-me a mim aos solavancos no bolso, a ver o mundo ser estranho, sem eu ter a petulância de me chamar estrangeira. não mais.





5 11 2009

O mundo está surdo a mim. Resvalaste-lhe na superfície, na pele de um sítio do corpo dele que não sente.

Eu estou, estive muda. De silêncios que não foram o caminho entre o que deixou cá dentro e o que larguei aí também.

O tempo parou como um carro que trava e provoca o choque em cadeia. Tudo o que veio atrás encorrilha, esmaga-se, faz montanhas cujos cumes se tocam.

O que vivemos amarfanha-se até ao resto dos dias seguirem meio rasgados, de pontas soltas, tenuemente, como a impressão de que se respira.

Até Sempre, Fernando Mendes.





3 11 2009

não estás aqui e não me disseste: precisamente, não me disseste. o dia último antes de continuar a viver, vai saltando no calendário, porque quanto mais ando mais perco o que sou. Não é bem perder, e não lhe dar luz para ter cor. Tudo o que sou não justificaria quereres ver-me ao fundo da rua e levar-me nas palmas da mão. De tanto que faço, penso no porquê de não querer lutar pela minha substância: se medo de mudar, se por pensar que o que sou intuitivamente é. Existe, assoma em mim.

Às vezes, se me falta caminho, podia pensar que já tenho alguns para escolher. O que me queres para ti, por exemplo. O que me vês em ti, por exemplo. Não quero deixar de fazer acreditar que eu sou essa pessoa e sei que nunca serei, invariavelmente. Pelo menos não sinto, como instinto, ser, como uma prenda que já não é surpresa. Problemático é não sentir, como um calor na garganta de certeza, o que sou, para poder esticar-me ao longo do risco e desfazer-me.





1 11 2009

É uma humidade fria no nariz e nas maçãs do rosto e eu tento resguardar a minha língua dentro da boca quente o mais possível, como se guardasse um segredo raro com que desafio o que paira.





31 10 2009

A luz de um sábado de manhã pede que fique em contra luz, com a nuca inundada.  Eu sou o que te contraria no caminho, e nem uma sombra sou. Vou emudecendo conforme tenho a ilusão que fico mais fria, sem estar sob a luz com todas as cores. A sombra, espero que leve à carne assombrada de histórias já cortadas à partida no impulso destruidor e de espantos, perante tanto que nasce e, especialmente, renasce.

Noutro sítio qualquer não. Não tenho chão para a minha sombra se esconder atrás de mim.





31 10 2009

A escuridão inundara, literalmente, os campos. Olha a devastação, noite líquida negra cobria metade da casa de janelas ainda abertas e flutuava a mesa posta para a refeição. O silêncio dizi que há muito teriam esquecido aquelas vozes, mas tudo parecia ter sido interrompido ali, tudo já metade engolido, o assistirmos inteiros à necrose que não nos tocou.





23 09 2009

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há uma forma minha de me dizer adeus, de me despedir de mim num futuro feliz que sonho agora.





23 09 2009

Debaixo de água enquanto fazia o melhor para nadar e me exibir, para ti que me vias dos vidros lá de cima, ouvi-te gritar o meu nome. Interrompi-me assustada, a querer ser heroína da tua história ou vítima nunca vingada.

Submergi para ouvir tudo em câmara lenta e num longe do inconsciente fabricado à pressa. Vou tentar de novo deixar-te sem uma resposta heróica ou sem história. Para isso tinha que ter tempo em mim para ser, sem ser com o devir.





23 09 2009

Não a ecolhi e aceitei demasiados pactos. Apaticamente, não consigo deixar de ter tudo sob controlo até ir dormir.

Quero tanto que ela vá dormir. Faço tão pouco barulho e anseio acordar com a alvorada, só para ouvir os rumores intocados. Nem que os olhos pesem, o coração é leve sem ume spectro que puxa o tempo,como se puxa o lençol na cama, até me interpelar outra vez.

Tenho que falar silêncios que ela não lê. Estou sempre onde não pedi para estar, a um tempo a jusante do meu corpo e os meus passos não me levam para o sítio onde me julgo mais livre: a minha cabeçacom a minha voz incessante de tudo.

Até aí chego e vejo tudo remexido: já estive aí e sei como és e me és. Arruma de novo, detesto o caos e tu és a desordem. Não a minha, mas a que me rodeia. O que é pior, no teu caso.